quinta-feira, 30 de julho de 2009

País de Ébrios!

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Os portugueses têm um passado grandioso e destemido. Deram mundos ao mundo e ajudaram a desvendar paragens desconhecidas, marcaram pela diferença na colonização, foram mais amistosos e conseguiram integrar-se com mais facilidade, foram corajosos e audazes e deram um contributo essencial para delinear o mapa do mundo.
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Impulsionados pela reconquista e pela procura de alternativas às rotas do comércio no Mediterrâneo, tiveram rasgos de génio e introduziram inovações tecnológicas notáveis em termos de ciência náutica, cartografia e astronomia. Desenvolveram as primeiras embarcações capazes de navegar em mar aberto e foram eles os primeiros a utilizar a caravela e a desenvolver as velas triangulares que lhes permitiam ziguezaguear contra o vento e explorar zonas cujo regime dos ventos era desconhecido.
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Foram os portugueses que iniciaram a Era dos Descobrimentos europeus que durou três séculos (XV a XVII) e que veio a mudar para sempre a fisionomia e a organização política mundial, tal como ela existia na altura.
Desde a conquista de Ceuta, em 1415 até à entrada em Macau, em 1557, os portugueses viajaram pelo mundo conhecido e entraram pelo desconhecido. Navegadores como Gil Eanes, João Gonçalves Zarco, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Fernão de Magalhães, Gonçalo Velho Cabral, Diogo Cão, trouxeram para a coroa portuguesa a jurisdição e o controlo de locais próximos como as Canárias, a Madeira, Cabo Verde e os Açores. Mas foram eles também que nos levaram mais longe; a sua audácia permitiu-nos dobrar o Cabo da Boa Esperança e inaugurar a maior estrada comercial do mundo – o Caminho Marítimo para a Índia. Em 1500, desvendámos o Brasil e explorámos as suas riquezas, colonizámos e fomos colonizados, convivemos e assimilámos.
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Chegámos ao Sul da China com Jorge Álvares em 1513, o primeiro europeu a alcançar e a visitar o território que actualmente é Hong Kong. Alcançámos o Japão em 1543 e mais uma vez fomos os primeiros europeus a conseguir tal feito, segundo relata Fernão Mendes Pinto. Tínhamos chegado à Terra Nova alguns anos antes, com Gaspar Corte Real e alcançávamos, então, um domínio tão significativo que conduziu ao estabelecimento com a Espanha de um dos mais importantes tratados da história. O Tratado de Tordesilhas dividiu o mundo em duas partes. Portugal ficou com as terras "descobertas e por descobrir" situadas antes da linha imaginária que demarcava 370 léguas (1.770 km) a oeste das ilhas de Cabo Verde, e a Espanha ficou com as terras para além dessa linha.

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Desde então muito se alterou e o nosso poder, a nossa riqueza e a nossa influência no concerto das nações esfumaram-se. Vivemos de recordações vãs e de desígnios perdidos, somos um país pobre e inculto onde proliferam videirinhos e chico espertos e não conseguimos guindar-nos para níveis de desenvolvimento e de riqueza sequer próximos do que já tivemos. As nossas estatísticas são débeis e reveladoras do país estagnado que somos, dos atrasos vários de que padecemos e uma falta de esperança generalizada abate-se todos os dias sobre nós. Hoje vivemos num país de promessas, onde a mentira é dona e senhora, onde a ética é uma ficção e o clientelismo uma realidade. Vivemos num país adiado onde o concubinato entre política e negócio é uma constante e a cultura do mérito uma ausência.
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São poucas as áreas onde ainda possuimos alguma relevância e alguma vantagem. Temo que até essas venham a desaparecer, mas este será certamente o meu pessimismo natural a falar. Tomara que esteja enganado, que o nosso futuro seja risonho, que as nossas vantagens se multipliquem, que as nossas competências se revitalizem. Enquanto isto não acontece, temos que nos resignar a alguns feitos menores, somos o 4º maior consumidor de vinho per capita do mundo e, sendo o Luxemburgo o 1º, com cerca de 16% de população portuguesa, não sei se não ficamos ainda mais bem classificados.
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segunda-feira, 27 de julho de 2009

Vamos relativizar!

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Depois de algumas semanas ausente, não por falta de temática, mas por motivos profissionais, volto com gosto a estas paragens da blogosfera.

A dois passos de umas merecidas férias e numa incursão por destinos distantes, descobri um conjunto de mapas interessantíssimos que ilustram diferentes realidades e, mais do que isso, nos ensinam a relativizar e a enquadrar.
Assumo a minha paixão pela representação gráfica; mapas, gráficos, tabelas e esquemas coloridos. Constituem uma maneira de traduzir a realidade, uma forma criativa de interpretar e um auxílio enorme à análise e à compreensão.
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O Estado Novo, por exemplo, utilizou abundantemente a propaganda para fundamentar algumas das suas decisões e políticas. Este mapa, “Portugal não é um País Pequeno”, surge durante a Segunda Guerra Mundial, quando foi necessário fundamentar a política de isolamento e neutralidade com a atenção dada às colónias africanas. A representação em mapa das colónias portuguesas e a sua dimensão comparativa relativamente aos principais países europeus constituem um apelo à grandiosidade da nação, à sua dimensão transatlântica, ao império colonial, à empresa dos descobrimentos e ao nosso poder além fronteiras.
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Conforme é referido na legenda, todos os territórios portugueses perfazem uma área maior do que a Espanha, a França, a Itália, a Alemanha e a Inglaterra em conjunto. Na realidade, é uma explicação defensiva e auto-justificativa, uma espécie de consonância cognitiva nacional para uma iniciativa inconsequente.
Curiosamente, esta prática de representação foi também utilizada para outras situações ou por outros países. Os Estados Unidos, por exemplo, recorrem frequentemente a este tipo de exposição para comparar a sua dimensão, quer em termos territoriais, quer em termos de produto ou de riqueza. Os Estados Unidos são, indiscutivelmente, um país grandioso em muitos aspectos e a utilização de um termo de comparação concreto e real facilita a compreensão deste facto.
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Em termos de produto, ou seja de riqueza gerada, os Estados Unidos conseguem equiparar-se, por grupos de estados, às grandes potências mundiais. O produto da China corresponde ao produto da Califórnia, do Oregon, de Washington State, de Nevada, do Alasca e do Havai.
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O produto gerado pela Inglaterra corresponde ao produto de New York, New Jersey, Pennsylvania, Delaware, Maryland e Washington DC, em conjunto, e assim sucessivamente para a Alemanha e para o Japão.
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Na sequência deste tipo de representação, utilizou-se a mesma filosofia para retratar a população em termos comparativos. Utiliza-se neste mapa as bandeiras de países com população similar à dos estados americanos, onde se encontram representados.
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Ou ainda este mapa do Brasil, de 1957, similar ao das colónias portuguesas e utilizado para traduzir a grandeza efectiva do Brasil no quadro das nações poderosas de então. Dentro do território brasileiro cabem as várias potências europeias, e este pode ainda ser facilmente comparado, em termos de dimensão geográfica, a toda a América do Sul sem o Brasil, ou aos Estados Unidos sem o Alasca.
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O Brasil é o 5º maior país do mundo, depois da Rússia, do Canadá, dos Estados Unidos e da China. Foi descoberto pelos portugueses, fala português, constitui o principal representante da língua portuguesa no mundo e é por nós tão esquecido e desaproveitado. Não nos podemos esquecer que será graças ao forte crescimento populacional do Brasil (as Nações Unidas estimam que em 2050 o Brasil tenha 250 milhões de pessoas e seja a 5ª economia do mundo em termos de produto) que poderemos esperar um crescimento exponencial no uso do português.