quarta-feira, 4 de março de 2009

O Tsunami Americano

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Em 24 de Julho de 2002 escrevi um artigo no Diário Económico que hoje voltei a consultar e que resolvi partilhar. Naquela altura os sinais de uma crise económica e a própria situação em muitas economias eram preocupantes e apontavam para uma depressão sem precedentes. Tal facto não se veio a verificar no imediato e as economias, em particular a Americana, mantiveram-se anémicas mas em funcionamento.

A guerra do Iraque, a desvalorização do dólar, o crescimento exponencial da China e a consequente compra de divida americana, a continuada descida das taxas de juro e o incentivo ao crédito contribuíram para atenuar/adiar a crise que parecia iminente e que veio a explodir, em todo o seu esplendor, no ano de 2008, seis anos após o artigo que aqui vos deixo:

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::::::::::::::::::::::::::::::::O Tsunami Americano

Estamos hoje perante a primeira crise económica do século XXI, mais uma das consequências do 11 de Setembro de 2001 data mítica que ainda povoa o imaginário colectivo do mundo desenvolvido. É certo que a crise económica tinha sido desencadeada muito antes disto mas é indiscutível que este acontecimento veio despoletar um sentimento de pavor, de desconfiança e de fuga sem precedentes que acelerou, consideravelmente, o processo de deterioração económica.


As economias desenvolvidas viveram nos últimos anos um período de assinalável prosperidade e crescimento, as doutrinas de mercado e as ideologias liberais que fizeram escola nos Estados Unidos foram disseminadas de forma crescente por todas as economias de mercado. A criação de valor para o accionista, o adopção de critérios contabilístico - financeiros inovadores, a euforia das fusões e aquisições, a desregulamentação da maioria das industrias, a febre da internet, a fúria consumista das stock-options, o expoente máximo do mercado – o Nasdaq.
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Mas na realidade durante a 2ª metade da década de 90 o mundo viveu iludido por um sentimento de facilitismo, por uma prosperidade fictícia, por um crescimento sem sustentação. Criou-se para a economia Americana o mito do gigante com pés de barro, sustentado por uma teia de cumplicidades, mentiras e estatísticas maquilhadas, enquanto que na Europa os governos socialistas apanhavam a onda e dedicavam-se ao que melhor sabem fazer – esbanjar dinheiro. Portugal, França, Alemanha, Itália, viveram acima das suas capacidades e gastaram demais quando o recomendável seria contenção, reformas e liderança forte. Neste momento os castelos de areia e os oásis de prosperidade desapareceram e a realidade que se nos depara é de uma crueza demolidora.
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Espreita no horizonte, qual algoz furibundo, uma crise sem precedentes só talvez equiparável ao holocausto económico de 1929. Trata-se de uma crise que vem abalar os alicerces do liberalismo moderno, que emana do tecido empresarial e que é acompanhada por um sentimento de pavor social generalizado.
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Poderemos estar perante um importante retrocesso do modelo de economia de mercado assente no “laissez-faire” do capitalismo. Uma situação deste tipo poderá ter consequências decisivas sobre a forma como as economias encaram o investimento, sobre o papel dos governos e o seu grau de intervenção nas economias, sobre a maneira de fazer negócios dentro e fora de fronteiras, talvez estejamos a caminhar para uma economia mundial sem ímpeto, sem dinamismo e fechada sobre si própria.
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Os críticos indefectíveis do modelo corporativo americano rejubilam com a perspectiva de pela primeira vez terem a razão do seu lado. A descredibilização do sistema financeiro, o desmoronamento dos mercados, a crescente crise de liquidez, os níveis mínimos das taxas de juro e agora a tendência confirmada de desvalorização do dólar, vêm por em causa o modelo de desenvolvimento Americano.
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A queda do comunismo e o “boom” americano dos anos 90 foram decisivos para a criação da ideia de que o modelo de negócio americano constituía o padrão a aplicar a qualquer país. As crises financeiras na Ásia, América Latina e Rússia, a falência do estado providência Europeu, o desmoronamento do Japão, foram factores decisivos para a credibilização Americana consolidada pela influência, o rigor e a exigência de organizações como o FMI, o Banco Mundial e a própria Reserva Federal.
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Neste momento existe uma forte possibilidade de os Estados Unidos entrarem numa recessão da qual ainda não se haviam libertado totalmente. A desvalorização continuada do dólar, este ano já se desvalorizou cerca de 10%, pode significar uma grande mudança. O perigo da desvalorização pode amedrontar os consumidores Americanos, os motores da economia mundial dos últimos anos. Segundo George Soros “as tendências nos mercados cambiais tendem a manter-se vários anos e aparecem acompanhadas de grandes mudanças”. Neste momento os maiores aforradores mundiais observam com reticências a inacção da Administração Americana e começam a retirar os seus fundos dos E.U..
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A economia norte-americana não tem já grandes instrumentos para vencer uma destruição acentuada de liquidez. As taxas de juro de referência da Reserva Federal estão nos seus níveis mínimos e a última arma de choque expansionista está já em acção, a desvalorização do dólar. “O pesadelo dos pesadelos é ver os Estados Unidos apanhado na armadilha em que está o Japão há mais de uma década. Foi uma crise bolsista no início dos anos 90, contagiada aos bancos, que deixou o Japão numa deflação quase crónica.”
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Enquanto isso a Europa vive sobressaltada pelo fantasma do Pacto de Estabilidade, qual camisa de forças que neutraliza todo e qualquer esforço de revitalização económica. O equilíbrio orçamental, a transparência das contas, o cumprimento de critérios contabilísticos claros devem constituir práticas inerentes ao funcionamento de qualquer estado/governo em qualquer economia. Mas será um erro centrar os esforços de uma governação no equilíbrio das contas públicas enquanto a economia definha a olhos vistos, as empresas despedem e reduzem custos até ao limite do aceitável para a sua sobrevivência e as pessoas contam os tostões.
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A economia Americana vai, certamente, deixar de ser o motor da economia mundial, como acontecia até aqui, mas acredito que existe, apesar de tudo, uma janela de oportunidade para o aparecimento de um modelo de negócio Europeu, um misto de “capitalismo selvagem” e “estado empresário” onde a tónica deverá ser sempre, a de um estado mais regulador, mais informado, mais eficiente e mais credível.
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Estou certo de que o agravamento da situação económica mundial, com o prenúncio de uma nova recessão nos Estados Unidos, obrigará a União Europeia a rever, rapidamente, os critérios subjacentes ao Pacto de Estabilidade, tentando assim minimizar os efeitos do “Tsunami” Americano.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Recessão, Mentiras e Medo

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O Instituto Nacional de Estatística revelou há momentos os números do Produto Interno Bruto português para o quarto trimestre de 2008.

A incerteza, a expectativa e a esperança deram lugar à dura realidade. A economia portuguesa registou o terceiro pior desempenho entre os países membros da União Europeia, com o PIB a contrair 2,1%, em termos homólogos. Portugal ocupa o terceiro lugar, tanto numa análise homóloga, como em relação aos números do trimestre anterior.


Com contracções mais acentuadas que a portuguesa está apenas a Itália, que mostrou uma diminuição homóloga de 2,6% e a Letónia, onde o PIB diminuiu 10,5% (variação não ajustada sazonalmente).


Segundo o Jornal de Negócios, “a queda de 2% no produto interno bruto português (PIB) no quarto trimestre, face aos três meses anteriores, foi a mais intensa desde o primeiro trimestre do ano de 1984, altura em que o FMI teve que intervir. O PIB recuou 2,1% em termos homólogos e 2% contra o terceiro trimestre do ano passado. Esta queda na evolução em cadeia do PIB português é a mais grave desde os primeiros três meses de 1984”.


É verdade que a crise abala praticamente todas as economias desenvolvidas. É verdade que os nossos principais importadores, a Alemanha e a Espanha, caem no quarto trimestre -1,6% e -0,7% respectivamente. É verdade que não existe coordenação ao nível de UE para atacar estes problemas. Mas é verdade também que nos iludiram com anúncios de empresas de sucesso, com referências à solidez da nossa economia, com a solução miraculosa do Magalhães, com a aposta salvadora das relações económicas com as “democracias” da Venezuela, Angola e Líbia, com o “show-off” mediático constante, com o simplex e o plano tecnológico, com a mania de parecermos o que não somos e a necessidade de desviar as atenções para questões laterais e acessórias.

Viveremos iludidos enquanto existir crédito para salvar as empresas que as leis do mercado condenaram à falência, enquanto não formos capazes de replicar dentro de fronteiras os níveis de produtividade que alcançamos no estrangeiro, enquanto não aproveitarmos o conhecimento daqueles que estão mais desenvolvidos que nós, enquanto não tirarmos devido partido da lusofonia e dos milhares de portugueses que se encontram por esse mundo fora e que estarão decerto disponíveis para ajudar o seu país. Viveremos iludidos enquanto a nossa arrogância se sobrepuser à nossa necessidade de aprender, enquanto os interesses pessoais e políticos forem mais fortes do que a necessidade de salvar o país.

Mais do que a recessão, preocupa-me a ausência de alternativas, a inexistência de visão, a descrença relativamente à capacidade político-governativa para ultrapassar as dificuldades. Estou convencido de que o que está em causa, neste momento, é o nosso modelo de desenvolvimento, a nossa estratégia de crescimento, as nossas opções de negócio, as apostas da nossa economia. Vivemos de uma economia com pés de barro, sem sustentabilidade, parasita do estado, sem rasgos de criatividade, sem assomos de coragem. Nestas condições, dificilmente conseguiremos potenciar o crescimento e assegurar uma clara e sustentada melhoria de vida às nossas populações; sem isto continuaremos anémicos e depressivos, mas agora com a agravante tenebrosa da situação económica mundial.

Enquanto a recessão se instala, o poder tentacular do estado agiganta-se para gáudio doentio de algumas forças políticas. O dinheiro flui sem critérios aparentes, os subsídios multiplicam-se em desespero e, enquanto houver financiamento, a nossa sobrevivência adiar-se-á até à agonia final.

Caminhamos para um estádio em que praticamente todos os portugueses passam a ter uma conta corrente com o estado que tudo controla, com o estado que tudo domina, com o estado que tudo agrega e desta forma o medo passará a constituir o denominador comum da nossa sociedade democrática.


Dificilmente imaginei possível que, em pleno século XXI, a qualidade de vida se agravasse a olhos vistos, o produto caísse a pique e acima de tudo, existisse um sentimento de medo e de receio generalizados. Os portugueses hoje sentem medo de falar, receio de se expressarem livremente e pavor de represálias. Perceberam que o poder político instalado é absoluto e se encontra apoiado num sistema de justiça parcial e influenciável.

O país precisa de uma alternativa. Os portugueses exigem uma mudança. Portugal tem que mudar e cabe-nos a todos participar neste processo. Pende sobre o principal partido da oposição uma responsabilidade enorme e uma obrigação imensa. A obrigação de apresentar uma alternativa credível, a obrigação de colocar os interesses dos portugueses à frente dos interesses partidários e pessoais, a obrigação de fazer mais e melhor, a obrigação de não vacilar, a obrigação de não errar e a humildade para trabalhar ao serviço do país e dos portugueses.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Um Desígnio para Portugal

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É com profunda apreensão e crescente preocupação que assistimos à sangria diária de despedimentos que afectam todas as economias, sem excepção. Da imparável economia chinesa até à moribunda economia islandesa, da esperançosa economia americana até à agonizante economia inglesa, da sólida economia alemã até à pálida economia espanhola. Todos sofrem os efeitos da recessão, todos procuram tomar medidas para a combater mas todas se revelam inconsequentes ou paliativas.
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A situação é preocupante, os sinais são aterradores e colocam em perigo a expectativa de crescimento e a evolução do nível de vida das populações, em todo o mundo. Este ano apenas, o desemprego subirá em 30 a 40 milhões e estima-se que o número de desempregados atinja os 500 milhões de indivíduos. Em Portugal, a taxa de desemprego deve já ter superado os 8% e esta situação pode ainda agravar-se até 2010. O governo assumiu finalmente uma taxa de desemprego de 8,5% para 2009 - previsão idêntica, aliás, à da OCDE -, e reconhece assim que o mercado de trabalho vai enfrentar uma das situações mais preocupantes das últimas décadas. “A taxa prevista corresponde ao valor mais alto dos últimos 23 anos, segundo dados da Comissão Europeia, baseados nas definições do Eurostat. Associada a este cenário está a projecção de uma quebra de 0,7% no número de empregados, o que se traduz na perda de pelo menos 36 mil postos de trabalho.”

Nem a mão protectora do estado, nem a dinâmica dos mercados parecem conseguir salvar as famílias deste drama dos tempos presentes. Os governos desdobram-se em pacotes, multiplicam-se em programas, disparam os incentivos mas, infelizmente, a sensação de retrocesso temporal, de regressão dramática em termos de ideais, de objectivos, de qualidade de vida, de expectativas, constituem uma realidade inexorável.

Os últimos dias em termos meteorológicos não parecem ajudar. A chuva permanente, o nevoeiro constante, a escuridão depressiva contribuem para um estado de espírito desesperante. Parece que não existe esperança, parece que se instalou uma resignação doentia e continuada e que o futuro deixou de constituir uma fonte de ilusões de progresso e passou a apresentar-se como um pesadelo de desassossegos.

Curiosamente num cenário como este é cada vez mais notória a incapacidade, a inconsequência, a irrelevância, o total alheamento que transmitem os nossos responsáveis políticos. Por cá discute-se tudo menos as medidas, as propostas, as opções para combater a “peste bobónica” que se instalou.

O caso Freeport domina as notícias e ajudou a instalar a desconfiança, a absoluta ausência de credibilidade, a aldrabice, a tentativa de ludibriar, a preocupação com a imagem, a gestão meticulosa da informação. Vale tudo para continuar no poder, todos os argumentos são válidos, para tudo existe uma desculpa, para tudo existe um lado positivo, um lado rosa. Infelizmente, a inconsequência e a parcialidade ficaram bem patentes e são cada vez mais uma evidência do nosso sistema de justiça.

Os desígnios que se colocam para os próximos quatro anos são a nova proposta de regionalização e o casamento dos homossexuais. No primeiro caso, mais uma vez, a tentativa de formalizar uma realidade burocrática que asfixia o país agora sob a forma de regiões e poderes locais; barões e baronetes paroquiais de olhos postos no seu umbigo e apaniguados políticos de terceira categoria. No segundo caso, uma questão social eleita ícone de marketing politico e utilizada, pura e simplesmente, para fazer face a interesses partidários irresponsáveis e de curto prazo.

Mas infelizmente, a nossa classe politica personifica um deserto de ideias, uma ausência total de desígnios, uma total incapacidade para inovar, um comodismo transversal. É confrangedor assistir a debates na Assembleia da República. O circo da democracia levado ao expoente máximo da hilariedade, da incompetência e do interesse próprio. Surpreende-me a falta de preparação, a ausência de profissionalismo, as temáticas debatidas pela rama, a ausência de alternativas, a massificação dos “sound bytes” inconsequentes, a pequena política, a conversa de café.

Onde estão os desígnios nacionais? Quem nos pode transmitir confiança, força, segurança e esperança no futuro? Onde está a garra para construir, a vontade de arregaçar as mangas e trabalhar? Onde estão os programas efectivos e consequentes para combater a crise social? Onde estão as soluções do estado para empregar pessoas, para dar trabalho? António Barreto no seu último artigo do Público faz sugestões curiosas de medidas, tipo “New Deal” para combater a crise.

É necessário criar as condições para que o mercado funcione, é necessário repensar o nosso modelo económico, é necessário requalificar o nosso tecido industrial, apostar na qualificação dos nossos recursos e promover o empreendorismo.
Os Estados Unidos vão lançar um colossal programa de investimentos públicos em simultâneo com uma redução significativa da carga fiscal actuando assim, ao nível da oferta e da procura. A Europa deve acompanhar estas medidas, deve tirar lições da crise Japonesa dos anos 90, repiscar algumas das medidas do “New Deal” de Roosevelt e por último, exigir mais e sempre mais dos seus políticos e do regime político que escolheu como seu – a democracia.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Diplomacia Inteligente

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(Deixo o meu artigo publicado este fim de semana no Semanário Sol)

Apesar dos oito graus negativos do passado dia 20, milhares de pessoas assistiram à cerimónia da tomada de posse do novo Presidente Americano. Os relvados amarelecidos do Mall, a Pennsylvania Avenue e Lafayette Square transbordavam de vida, de entusiasmo e, acima de tudo, de esperança e de expectativa em relação ao futuro.

Nunca na história do mundo se esperou tanto de um só homem e da sua capacidade para governar e conduzir uma nação. Obama tem uma responsabilidade gigantesca perante os americanos e, curiosamente, perante o mundo que o admira, que o observa e que o copia.

Acabámos de entrar num novo começo (“a new begining”); a partir daqui os americanos vão inaugurar uma nova forma de fazer diplomacia, uma nova forma de gerir a imagem, uma nova atitude perante o mundo e uma nova forma de lidar com os seus aliados. Hillary Clinton denominou esta nova postura como “smart power” por oposição ao “hard power” de George W. Bush. Esta não é uma classificação nova, foi referida pela primeira vez por Suzanne Nossel na revista Foreign Affairs em 2004 e é também defendida por variados pensadores políticos, como Joseph S. Nye, Jr., Professor de Relações Internacionais na Universidade de Harvard. Os livros, filmes, canções, ideais, diplomacia e autoridade moral por oposição às armas, bombas, tanques, e sangue.

Hillary, na sua audição perante o Comité de Relações Internacionais do Senado, referia justamente a necessidade de utilizar todas as ferramentas ao seu alcance; diplomáticas, económicas, militares, politicas, legais e culturais para, em combinação ou isoladamente, as adaptar da forma mais adequada a cada situação. Referia, em súmula, que “with smart power, diplomacy will be the vanguard of our foreign policy”.

A Secretária de Estado teve a humildade de reconhecer aquilo que é uma evidência para o mundo e que se acentuou de forma significativa com o autismo e a obsessão ideológica da anterior administração. A América não pode ter a pretensão de resolver os problemas do mundo sozinha, nem de querer impor ao mundo a sua vontade e a sua maneira de estar, mas o mundo também não pode querer resolver as suas dificuldades sem a participação dos Estados Unidos.

Constitui uma evidência que os Estados Unidos foram bem sucedidos sempre que lideraram coligações com desígnios comuns e consensuais. Um trabalho bem feito nesta matéria permitiu aos Americanos consolidarem o seu prestígio como um referência para a segurança mundial e, acima de tudo, garantia da democracia e da liberdade. Este património foi delapidado pela administração cessante. As circunstâncias, é certo, foram muito particulares. O 11 de Setembro abriu uma ferida com consequências tremendas para o povo americano que justificou muito dos esforços iniciais mas que a partir de determinada altura serviu para alimentar uma vendeta idiológica incontrolável.

A actual crise mundial constitui um exemplo desta evidência. Todos os países, sem excepção aguardaram e aguardam com expectativa e esperança as decisões da nova administração. Obama tem aqui uma oportunidade magistral de definir as regras, estabelecer os objectivos e assumir uma visão para o futuro que será certamente seguida por todos. A União Europeia constitui aliás, o exemplo vivo desta realidade, com os principais protagonistas a aguardarem que os Estados Unidos definam o rumo a seguir.

A aposta numa diplomacia inteligente, mais do que uma politica alternativa ou uma estratégia inovadora, constitui uma necessidade e uma obrigação para esta Administração. A crise financeira e a situação extrema a que chegou a economia americana obrigam a reduções significativas de gastos, em termos da defesa, e a uma optimização profunda das forças, em cenário de guerra.

Em 2007 apenas, os gastos do Departamento da Defesa chegaram a $500 biliões de dólares, excluindo os gastos com a guerra no Irão e no Afeganistão. A manutenção numa base permanente de um exército de 1,5 milhões de homens e o crescimento continuado da indústria da defesa contribuem para que estes números representem cerca de 40% a 50% dos gastos militares do mundo.

É fundamental rever esta situação sem colocar em perigo a segurança nacional, a luta contra o terrorismo ou os valores que suportam a democracia americana. Vai ser necessário rever o modelo de relacionamento com aliados e adversários, repensar o papel da Nato e reequacionar o equilíbrio de forças e o processo de decisão do Conselho de Segurança das Nações Unidos.

Alterações a este nível implicam impactos profundos e riscos acrescidos. É necessário considerar o impacto financeiro sobre a indústria do armamento, a redução do emprego militar, a necessidade de partilhar informação classificada, a necessidade de aumentar o investimento em investigação militar de ponta e, possivelmente a maior das dificuldades, a necessidade de confiar em amigos e aliados. Mas os resultados esperados podem ser grandiosos; reduções significativas do orçamento de defesa, melhoria das relações com aliados, melhor aceitação internacional em caso de acções militares no estrangeiro, melhor conhecimento e solidariedade da opinião pública mundial e maior coordenação e eficiência no campo de batalha.

Vivemos hoje num ambiente global. A globalização aproxima-nos cada vez mais e, por essa razão, este constitui o momento ideal para utilizar a diplomacia em vez da força, a inteligência em vez da teimosia, o tacticismo em vez do unilateralismo.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

“Chasing the Flame”

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“Chasing the Flame” é o livro de Samantha Power sobre a vida e o trabalho de Sérgio Vieira de Mello; uma biografia exaustiva e trabalhada sobre a admirável trajectória do diplomata brasileiro, os cargos que ocupou, a sua envolvente politica, humana e familiar, os seus ideais, as suas preocupações e motivações, as relações humanas, sua mais valia, a sua capacidade negocial e a sedução como arma de combate.

Sérgio Vieira de Mello encarna alguns dos melhores valores que inspiraram a fundação da ONU: alguém que dedicou toda a sua vida a uma causa e a um ideal. Em todas as zonas de conflito em que actuou ao longo dos seus 34 anos de carreira na ONU - Bangladesh, Sudão, Moçambique, Líbano, Ruanda, Kosovo, Timor Leste e Iraque –, Vieira de Mello mostrou a mesma preocupação com a dignidade das vítimas da guerra, do desterro e da fome. Um homem corajoso e lutador que viveu também o dilema da incapacidade e das limitações da ONU e que nos revela a relativa impotência da organização diante das grandes catástrofes humanas da história recente.

Sem autonomia de combate, as forças de paz da ONU são muitas vezes chamadas para missões paliativas, nas quais se limitam a "monitorar" massacres em curso. As determinações do Conselho de Segurança revelam-se frequentemente vagas, porque os países-membros não se querem comprometer com linhas de acção claras. Um exemplo rico de informação sobre esta temática é a sua missão de 1982, ao lado das forças de paz no Líbano – a invasão do país por Israel em desacordo com as resoluções da ONU, constituiu uma dura decepção.

“Chasing the Flame” é um livro fascinante que nos ajuda a perceber melhor alguns dos mais relevantes conflitos internacionais, os bastidores da politica mundial, o jogo de poderes das Nações Unidos e, mais do que isso, a hipocrisia e o cinismo que regem as relações entre os países e entre os povos; ao fim e ao cabo a verdadeira natureza das relações humanas.


Vieira de Mello é também um produto do Maio de 68 (participou nos protestos estudantis e foi gravemente ferido), um rebelde idealista com uma sólida formação de esquerda e com uma matriz claramente francófona, o lado europeu da ONU por oposição ao lado anglosaxónico. Vieira de Mello era um pensador dos tempos modernos, um verdadeiro Indiana Jones da diplomacia, com uma sólida formação filosófica. Tinha um Mestrado e um Doutoramento em Filosofia pela Sorbonne (Doctorat d’état) com o título - “Civitas Maxima: Origins, Foundations, and Philosophical and Practical Significance of the Supranationality”. Nele apresenta-nos a sua própria versão de uma sociedade utópica igualitária e introduz uma teoria afirmativa do universalismo baseado no respeito mútuo entre países.

Samantha Power descreve-nos de forma meticulosa o diplomata e o homem, o filósofo e o operacional, o romântico e o solidário, o utópico e o pragmático, o idealista e o lutador.

Curiosamente, esta americana de origem irlandesa é uma das principais ideólogas da politica externa preconizada pelo actual presidente Obama. Doutorada em Havard, professora de relações internacionais na Kennedy School of Government, directora do Carr Centre for Human Rights Policy, já foi correspondente de guerra e vencedora do Pulitzer com o seu livro - "A Problem from Hell: America and the Age of Genocide" (fala-nos sobre a forma como a América lidou com o genocídio ao longo do século XX, incluindo os massacres do Ruanda, Bósnia e Darfur). Power simboliza a nova forma de abordar a diplomacia americana, representa um certo regresso a um tipo de diplomacia Clinton, que foi tão bem descrita por Hillary como “smart power”.

Enquanto concluía o livro sobre Sérgio, fechada em casa, só interrompia o trabalho quando duas pessoas lhe ligavam: a mãe e Obama ("It"s Obama. Call me"). Em 2004, ficou tão impressionada com ele, que decidiu suspender as suas actividades académicas para ir ajudá-lo no Congresso. Regressou para ajudá-lo na campanha até à infeliz entrevista a um jornal escocês em que se referiu a Hillary Clinton como a “monstra”. Foi expulsa da campanha presidencial, pediu desculpa e ausentou-se durante uns tempos. A opinião unânime era de que Obama não passaria sem a sua ajuda e assim aconteceu. Samantha Power voltou, sorrateiramente, para integrar a equipa de transição de Obama.

Hoje dia 30 de Janeiro, foi nomeada “Senior Director of Multi-lateral Affairs at the National Security Council” ou seja, terá um papel decisivo na formulação da política externa americana nas Nações Unidas, no G-8 e noutros fóruns globais.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

“Ivy Crises”

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A crise financeira que devasta fortunas, desfaz empresas, arruina instituições financeiras, arrasta milhões para o desemprego, leva gestores ao suicídio, famílias ao desespero chegou também às universidades mais prestigiadas do mundo.
:: A Ivy League representa a nata do ensino universitário americano e constitui uma referência de excelência académica, de selectividade, de elitismo e de sucesso. Neste grupo estão oito universidades privadas do nordeste americano, universidades coloniais, universidades ancestrais que constituem a matriz da cultura anglo-saxónica que forma os Estados Unidos da América. A Universidade de Brown, em Providence; a Universidade de Columbia, em Nova Iorque; a Universidade de Cornell, em Ithaca, Nova Iorque; o Dartmouth College, em Hanover, New Hampshire; a Universidade de Harvard, em Cambridge, Massachusetts; a Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia; a Universidade de Princeton, em Princeton, New Jersey e a Universidade de Yale, em New Haven, Connecticut.

O termo Ivy League aparece ligado ao desporto e torna-se oficial em 1954, com a criação da NCAA Division, período em que a atenção estava muito focalizada na competição desportiva entre universidades. Segundo o History Dictionary, o nome Ivy League deriva das heras verdes que revestem os prédios históricos dessas instituições, num claro sinal da sua ancestralidade. As universidades da Ivy League são também chamadas "Ancient Eight" ("as oito antigas") ou simplesmente Ivies.

Esta liga de ouro possui e gere legados (endowments) avaliados em biliões de dólares. Harvard está à cabeça e possui, ou melhor possuía o maior legado do mundo, avaliado em $37 biliões de dólares, no início de 2008.

É uma honra e um orgulho poder ostentar no curriculum o nome de Harvard. A possibilidade de aprender com os melhores dos melhores, a oportunidade de conhecer a vanguarda do conhecimento, lidar de perto com alguns dos melhores professores do mundo, trabalhar com alguns dos mais brilhantes estudantes constituem uma oportunidade única acessível a muito poucos.

(Franklin Roosevelt na fotografia)

Harvard, a mais antiga e a mais rica, foi pioneira na criação de um modelo de diversificação de investimentos mais tarde copiado por outras universidades. Enquanto muitos investiam em acções e obrigações, os executivos da Harvard Management C. aplicavam o legado bilionário em florestas, private equity, start-ups e capital de risco. Se, durante vários anos, os níveis de rentabilidade compensaram - 13,8% de rentabilidade anual, ou seja, duas ou três vezes mais do que o mercado de acções; a questão agora é a de saber se este modelo amorteceu ou potenciou os efeitos da crise dos mercados.

Segundo as últimas evidências e os cálculos da Moody's Investors Service (cerca de 30% de perda nos legados de colégios e universidades) isto significaria uma perda de $11 biliões de dólares para Harvard.

Estes dados não são confirmados pela universidade, mas os factos e as práticas apontam para perdas avultadas. O recente email da presidente para professores, alunos, alumni e staff refere explicitamente "unprecedented endowment losses" e revela que a escola procura outras formas de reduzir custos "We have to think not just about what more we might wish to do, but what we might do at a different pace or do without"

Curiosamente, e apesar da necessidade de reduzir custos, mais uma vez num momento de dificuldade regista-se a intenção expressa da universidade em intensificar os programas de ajuda que permitem que as famílias com rendimentos anuais inferiores a $60,000 dólares não paguem nada para enviar os seus filhos para Harvard, se o mérito o justificar.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

“Tears of Joy”

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É com enorme emoção e imensa saudade que acompanho as festividades da cerimónia de inauguração e a tomada de posse do novo presidente. Reconheço os lugares, identifico-me com os ideais, sinto as pessoas, vibro com as imagens. Washington está no meu coração e os Estados Unidos são indiscutivelmente a minha pátria de eleição.

Hoje mais do que nunca, sinto-me americano, partilho a esperança e a emoção que se fazem sentir, comungo da mesma matriz democrática e comovo-me com a mais pura das manifestações de democracia.

O frio gélido que se faz sentir não impediu que mais de dois milhões de pessoas invadissem a cidade para participar nesta magnífica cerimónia, repleta de simbolismo e de personalidade, que envergonha as democracias seculares do velho continente.

Esta é a verdadeira encarnação do espírito dos “Founding Fathers”, esta é a verdadeira encarnação do “american dream” e mostra-nos que no país mais desenvolvido do mundo existe igualdade de direitos e de oportunidades, mostra-nos que a maior democracia funciona e que o direito à liberdade e a recompensa pela mérito e pelo esforço do trabalho são uma realidade. Só assim foi possível, como disse Obama, a um filho de emigrante negro, que há sessenta anos atrás poderia não ser sequer servido num restaurante, ser hoje empossado no cargo de Presidente dos Estados Unidos da América.

Um discurso de transformação e não de transição, um discurso de força e de convicção e não de conforto, um discurso de ambição e não de acomodação. Este “Inaugural Adress” representa o inicio de uma nova era, a chegada ao poder de uma nova geração. Deixo-vos algumas das mais marcantes passagens deste discurso:

“The words have been spoken during rising tides of prosperity and the still waters of peace. Yet, every so often the oath is taken amidst gathering clouds and raging storms. At these moments, America has carried on not simply because of the skill or vision of those in high office, but because We the People have remained faithful to the ideals of our forbearers, and true to our founding documents.”

“Today I say to you that the challenges we face are real, they are serious and they are many. They will not be met easily or in a short span of time. But know this America: They will be met.”

“In reaffirming the greatness of our nation, we understand that greatness is never a given. It must be earned. Our journey has never been one of shortcuts or settling for less.”

“Now, there are some who question the scale of our ambitions, who suggest that our system cannot tolerate too many big plans. Their memories are short, for they have forgotten what this country has already done, what free men and women can achieve when imagination is joined to common purpose and necessity to courage.”

“Nor is the question before us whether the market is a force for good or ill. Its power to generate wealth and expand freedom is unmatched.”

“This is the meaning of our liberty and our creed, why men and women and children of every race and every faith can join in celebration across this magnificent mall. And why a man whose father less than 60 years ago might not have been served at a local restaurant can now stand before you to take a most sacred oath.”

“America, in the face of our common dangers, in this winter of our hardship, let us remember these timeless words; with hope and virtue, let us brave once more the icy currents, and endure what storms may come; let it be said by our children's children that when we were tested we refused to let this journey end, that we did not turn back nor did we falter; and with eyes fixed on the horizon and God's grace upon us, we carried forth that great gift of freedom and delivered it safely to future generations.”

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

De volta ao essencial

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Os portugueses têm por natureza, uma capacidade infindável para se perderem em assuntos laterais. Dedicam tempos sem fim a falar de minudências e pormenores, investem horas em reuniões de trabalho inconsequentes, apostam em noticiários e artigos de jornal vazios de contéudo, indignam-se com detalhes e extasiam com as vidas privadas dos conhecidos, gastam tempos incomensuráveis em transportes e apodrecem nos escritórios até às nove da noite, para impressionar o chefe.

A este propósito os temas dominantes dos últimos dias andam à volta das faltas dos deputados, irresponsáveis lúcidos; do julgamento da Casa Pia, continua cinco anos depois; das reuniões, negociações, greves, acordos, não acordos entre a nossa imparável Ministra da Educação e os "profissionais da sindicância".

Enquanto o país se preocupa com as falcatruas do BPN e companhia, o mundo continua na sua senda de crise e estagnação generalizadas. Os Estados Unidos, a um mês da tomada de posse do novo presidente, rejeitam, corajosamente, a ajuda financeira à indústria automóvel. Durão Barroso, no seu esforço constante para a reeleição, consegue in extremis a aprovação de um Plano de Ajuda conjunto que constitui a chave de ouro para um período de gastos incontroláveis e na minha opinião, e na maioria dos casos, inconsequentes.

Portugal prepara-se, agora legitimado por Barroso, para um bodo eleitoralista que irá fazer disparar, uma vez mais o nosso deficit. Alegres continuamos a pedalar para nos mantermos na mesma posição - a chamada "estratégia do urinol"

(Urinóis da Carcoran Gallery em Washington DC)

Transcrevo na íntegra uma notícia de hoje do Jornal de Negócios que nos deve preocupar e que infelizmente constitui a realidade que nos reduz à nossa insignificância e nos recorda a nossa incapacidade crónica.

“Os portugueses não sentiram melhorias significativas no seu nível de rendimento nos últimos 13 anos face aos parceiros comunitários, de acordo com os dados divulgados ontem pelo gabinete de estatísticas comunitário.

Portugal está na cauda da Zona Euro, perdeu poder de compra entre 2005 e 2007, já foi ultrapassado por Chipre, Eslovénia, Malta e República Checa - que só integraram a União Europeia em 2004. E a distância em relação ao poder de compra de outros novos Estados-membros como a Eslováquia, Polónia e Lituânia está cada vez mais curta.

Em 2007, o poder de compra dos portugueses encontrava-se 23,8% abaixo da média da União Europeia (UE), apenas 1,2 pontos percentuais acima da distância registada em 1995, altura em que se inicia a série de dados comparáveis disponibilizados pelo Eurostat. Isto não significa, necessariamente, que, em termos absolutos, o poder de compra não registou melhorias por cá. Apenas confere a certeza de que os restantes Estados-membros conseguiram no mesmo período uma melhoria mais significativa do que o nosso País, onde o rendimento por habitante, medido em paridade do poder de compra, foi de 18.955,8 euros em 2007, bem abaixo dos 27.162 euros da vizinha Espanha ou dos 66.307,7 euros do Luxemburgo”.

[French satirical cartoon map (’Carte drôlatique d’Europe pour 1870‘) sought to get some laughs out of those tensions by showing an anthropomorphic map of Europe, where each country was represented by a caricature of its national ‘persona’]

Estas são as questões essenciais, são estes os problemas que deviam abrir os telejornais e aparecer nas capas dos principais jornais, esta é a temática relevante que devia mobilizar opiniões e suscitar debates. Esta é a nossa realidade, nua e crua, não evoluímos, não melhoramos, não progredimos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Regresso a Portugal

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Deixei Washington DC no passado dia 1 de Dezembro num voo transatlântico com passagem por Paris. Fica assim para trás, na saudade da memória, um dos mais felizes e preenchidos períodos da minha vida. Fica assim para trás uma das mais interessantes e educativas cidades do mundo, um povo lutador, optimista e positivo. Irei guardar para sempre junto das minhas melhores recordações o muito que aprendi, as amizades que criei, os hábitos que desenvolvi e as imagens que observei.

Ficarei para sempre ligado a esta cidade. Tal como uma vez escreveu Marjorie Williams - “the truth is that many newcomers stay forever, secretly at home in the city everyone loves to hate”.

Deixo-vos algumas das últimas fotografias que consegui. Uma noite fria e vazia numa cidade rica e cativante.

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Estar longe de Portugal um mês, três meses, doze meses ou dezoito meses é um tanto ao quanto irrelevante. Recordo uma vez mais e sempre o nosso Eça, aquele que melhor soube compreender e transmitir a imagem do nosso país –“o velho e rotineiro Portugal”.

Nos Maias, a sua obra prima, Eça conta-nos como Carlos da Maia, ao regressar a Portugal depois de alguns anos no estrangeiro, tem esta conversa sublime com o seu amigo Ega.


“ - Pois tudo somado, menino – observou Ega – esta nossa vidinha de Lisboa, simples, pacata, corredia, é infinitamente preferível.

Estavam no Loreto; e Carlos parara, olhando, reentrando na intimidade daquele velho coração da capital. Nada mudara. A mesma sentinela sonolenta rondava em torno à estátua triste de Camões. Os mesmos reposteiros vermelhos, com brasões eclesiásticos, pendiam nas portas das suas igrejas. O Hotel Aliança conservava o mesmo ar mudo e deserto. Um lindo sol dourava o lajedo; batedores de chapéu à faia fustigavam as pilecas; três varinas, de canastra à cabeça, meneavam os quadris, fortes e ágeis na plena luz. A uma esquina, vadios em farrapos fumavam; e na esquina defronte, na Havanesa, fumavam também outros vadios, de sobrecasaca, politicando.
- Isto é horrível, quando se vem de fora! – exclamou Carlos.
- Não é a cidade, é a gente. Uma gente feiíssima, encardida, molenga, reles, amarelada, acabrunhada!...”

Como são tristemente actuais as palavras de Carlos da Maia, como é horrorosamente semelhante a imagem do país, a descrição das gentes, a imagem dos locais. Portugal não muda e quando o faz imita toscamente e refina em mesquinhez, pequenez, intriga e inveja.

O país está cinzento e chuvoso, sem sabor, sem opinião, acomodado e sobretudo desmotivado e sem esperança. Os temas dominantes continuam os mesmos, não se alteraram, os protagonistas mantêm-se mas o país este, está mais pobre. A crise económica é generalizada e vai piorar, a letargia politica e o unanimismo consolidaram-se; ricos e pobres estão agora cada vez mais maneatados num colete de forças que sufoca a democracia e castra a criatividade e o empreendorismo.
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