quarta-feira, 11 de março de 2009

"The Washington Experience"

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(Deixo o testemunho que publiquei na Newsletter da Comissão Fulbright)
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I have spent the last three months of 2008 in the United States through a Fulbright Scholarship that allowed me to be in a professional and academic environment.

Last August I went to Washington DC to start an internship program with the United States Postal Service (USPS). This program has been one of the most fulfilling and rewarding experiences of my life and I welcome the opportunity to thank the Fulbright Commission for allowing me to have this possibility. This was a short stay with an enormous meaning, a small exchange with a huge output, a little time with a long lasting memory.

(Centro de Tratamento de Correio cujo nome homenageia a memória daqueles que falaceram aquando do ataque de antrax)

I was eager to learn from the best, to work with the most qualified in this field and it was with great pride and vast expectations that I embraced the program with the United States Postal Service. Today I can assure that I left with a feeling of fulfilment, accomplishment, completion and great success. And so it is that I carry with me from this experience the enduring knowledge, the lasting vision, the solid understanding of the biggest postal company in the world.

In September I enrolled in an academic program with the George Washington University and the Center for Excellence in Public Leadership. I finished the Senior Executive Development Program which prepares candidates for the Senior Executive Service (SES). The program is designed for senior managers in the federal government, GS-13 through SES level and comparable level military, state, and local officials who wish to enhance their abilities today in order to meet tomorrow’s leadership challenges.

This was a fulfilling happening and I certainly feel richer today. I learned immensely about the public service in the US, met very interesting people, contacted with well known teachers and gained knowledge of new and different management and leadership techniques that I can certainly apply in my country.

Washington DC was also a marvellous experience, a beautiful city that will always be in my heart. The Potomac and the Virginia shore, the grass on the banks, the colours of autumn, the sun rise over the Jefferson Memorial, the morning traffic as people make their way to work, now and then a sailboat on the river. As Marjorie Williams once wrote about this city “the truth is that many newcomers stay forever, secretly at home in the city everyone loves to hate” I believe that Washington always does more to change its newcomers than newcomers do to change it. It certainly changed me.

Like John Winthrop when he came to the United States, as an early Pilgrim, I imagined it like the “shining city upon a hill”. I have always looked up to the United States; it was my mother’s birth place, my childhood memory, my dream society, the reference of my aspirations, the model to my work. For what Pericles said to the Athenians has long been true of this country: "We do not imitate—for we are a model to others."
I returned with high hopes, in good spirit, with deep humility, and with very much gratefulness in my heart.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Por um País mais Produtivo

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Tenho andado a desencantar artigos que escrevi no passado e que de uma forma ou de outra têm alguma actualidade; seja porque a situação se mantém inalterada ou mesmo se agravou, seja porque o tema continua a ter interesse e agora é um bom momento para o repescar partilhando-o no ciberespaço.

A temática relativa à produtividade continua actual e critica para a nossa economia. Considero aliás que se trata de um dos nossos principais problemas e de um entrave ao nosso crescimento. Em 30 de Julho de 2002 escrevi no Diário Económico um artigo que se intitulava “Por um País mais Produtivo”. É chocante, passados que estão praticamente sete anos, ver que a situação do país se agravou e que o nosso afastamento em relação à média da EU piorou.

Em vez de alcançar o patamar dos outros países da união, Portugal está ficando para trás, e o seu produto interno bruto per capita caiu de 80% para 70% da média da UE desde que a Agenda de Lisboa foi lançada. A produtividade do trabalho, cerca de 40% da média da zona do euro não apresenta quase nenhum aumento desde o ano 2000.

O baixo nível educacional e o efeito prejudicial que isto tem sobre a produtividade, as universidades, a pesquisa e as inovações estão entre as principais causas da baixa competitividade e do reduzido crescimento de Portugal, de acordo com organizações internacionais. A Organisation for Economic Cooperation and Development (OECD) afirmou que o desempenho dos estudantes secundários portugueses estava entre os mais fracos do mundo desenvolvido e que o índice português de evasão escolar é um dos mais elevados. Segundo esta organização, a redução da "lacuna de capital humano" que separa o país dos outros países desenvolvidos é "essencial para que Portugal melhore a sua produtividade e volte a procurar chegar ao nível dessas outras nações".

A situação actual não é favorável e a recessão que se vive tem obrigado os países a agravar de forma significativa as suas despesas fazendo disparar os seus deficits orçamentais. Infelizmente a situação agrava-se quando os países já tinham uma despesa pública muito elevada como era o caso de Portugal.


Os dados relativos ao OE para 2009 são elucidativos e desta forma, o aumento da despesa pública e o abrandamento da economia levam a despesa do Estado a representar 50% do PIB, pela primeira vez na história.

Deixo o meu artigo, com sete anos, uma vez que a situação se mantém, as preocupações são as mesmas, o diagnóstico idêntico e a necessidade de mudança continua uma evidência.

:::::::::::::::::::::::::::::Por um País mais Produtivo

Um dos argumentos mais fortes para justificar o atraso económico do País é a baixa produtividade da economia portuguesa que, num mercado aberto e concorrencial, nos cria problemas imensos de competitividade externa. Desde o início da economia moderna Portugal sofre desta deficiência congénita e por mais capital que receba de fontes externas, fundos europeus e remessas internacionais, mais longe se encontra dos padrões médios da produtividade europeia.

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O produto por trabalhador corresponde, em Portugal, a 43% da média da UE, enquanto que em 1986 era equivalente a 41%. Passados 15 anos a evolução foi desprezível, o que vem reforçar a nossa clara incapacidade de convergir, em termos de rendimento, para a média da U.E. A título exemplificativo, um Luxemburguês produz num dia de seis horas o que um Português produz numa semana inteira (três vezes de diferença de produtividade), logo um nível de vida na cauda da Europa.

Por outro lado, o custo do trabalho por unidade produzida tem aumentado a taxas superiores à média europeia, o que teve um impacto, profundamente, negativo na competitividade das empresas portuguesas, as quais foram afectadas por uma taxa de inflação mais alta que a Europeia. Esta baixa de competitividade é uma das explicações para a perda de quota de mercado das exportações portuguesas nos últimos anos.
A situação não é fácil e a evolução registada até aqui em termos de estratégia de investimento, de sistema educativo, de melhorias de eficiência, de crescimento incontrolável de despesa pública corrente, indiciam uma situação preocupante num futuro próximo.

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É fundamental ganhar quotas nos mercados de exportação orientando a economia portuguesa decisivamente para o exterior. O peso das exportações em relação ao produto tem de aumentar sustentadamente nos próximos anos. Este é o grande desafio para a economia portuguesa, devendo constituir a primeira das prioridades da política económica. Só assim será possível aumentar a taxa de crescimento da economia e garantir uma convergência estrutural e sustentada com a média do rendimento europeu.
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O que determina a capacidade competitiva de um país, segundo Michael Porter, "não é o que o país produz, mas quão sofisticado e produtivo é esse país a fazer o que faz", pelo que a chave do problema já não se encontra nas condições macroeconómicas, impostas pela adesão ao euro, mas na "sofisticação microeconómica", traduzido no ambiente da qualidade dos negócios, onde entram as infra-estruturas e a legislação, entre outros factores.
O crescimento da Produtividade e da Competitividade será o grande e imediato desafio que não pode ser mais adiado sob pena de estagnar o crescimento do bem estar dos portugueses, afastando-nos assim da convergência real com a União Europeia.
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No contexto do alargamento da União Europeia ao Leste, onde a mão-de-obra é mais barata e melhor qualificada, e com a produtividade portuguesa nos níveis actuais, uma maior flexibilização da legislação laboral é essencial para, conjuntamente com a desburocratização do país e a diminuição dos encargos fiscais sobre as empresas, assegurar a competitividade externa portuguesa, evitando assim que algumas empresas possam trocar Portugal por destinos geograficamente menos periféricos.
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Em Portugal o peso do Estado corresponde a 47% da despesa nacional enquanto que na Irlanda este rácio é de apenas 32% e na Espanha é de 40%. Actualmente o Estado constituí o principal empregador com cerca de 700 mil funcionários, ou seja, 15% da população activa. Num cenário como este, a responsabilidade do Estado pela evolução do indicador de produtividade vem, claramente acrescida.
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Mas o Estado é o maior obstáculo ao desenvolvimento da produtividade; condiciona, entre outros determinantes, os recursos humanos por via do ensino, da formação e a investigação e desenvolvimento por via do seu quase exclusivo financiamento público. Detém ainda a propriedade e a gestão da maior parte das infra-estruturas de transportes, condiciona negativamente as relações laborais e enviesa a concorrência com subsídios e desadequados regulamentos, frequentemente não cumpridos. É ineficiente na prontidão da Justiça e mantém uma obsoleta administração pública. O Estado é ainda o maior empregador, o maior prestador de serviços, o maior comprador e o maior grupo empresarial. É juiz em causa própria e regulamenta (ou não regulamenta) muitas vezes em função de interesses eleitorais.
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Apesar de tudo, as empresas e os cidadãos têm também importantes responsabilidades e funcionam, muitas vezes como obstáculo à mudança. São insuficientes os objectivos de qualificação das empresas, o fraco envolvimento destas nos mercados externos, a fraca ligação inter e intra indústrias e o baixo investimento privado em I & D, a fraca qualidade da gestão das empresas e a baixa qualidade da força de trabalho
Por isso mesmo, ao Governo exige-se muito e rapidamente mas o papel dos cidadãos, das empresas e da sociedade em geral não pode ser descurado.

A situação que se vive no mercado de trabalho não é conjuntural é estrutural e a função pública não pode nem deve ser excepção. Por isso mesmo em vez de adoptarem uma atitude de reivindicação primária por privilégios e regalias irrealistas como estão a fazer os sindicatos da função pública, é melhor que as gerações mais novas se preparem para a realidade que as espera. Entrar no Estado vai deixar de ser garantia de um emprego seguro e para toda a vida. Os planos de carreira, com promoções por antiguidade que conduziam os indivíduos da base ao topo da hierarquia e estão na base daquilo que se convencionou chamar espírito do funcionalismo público acabaram.

As alterações propostas pelo Governo são justificadas com critérios de racionalidade, eficiência económica e qualidade do serviço prestado. São necessários esforços consideráveis de todas as partes e a alteração da legislação laboral é disso um exemplo, sem sacrifícios não há mudanças e sem mudanças não há progresso e desenvolvimento.

É necessário criar em Portugal um sentimento de mudança e de progresso cada vez mais alargado, e a única forma da economia ser competitiva é aumentar de forma sustentada a produtividade. Mas para além disto, aquilo que na realidade Portugal precisa é de um verdadeiro choque cultural, ou seja, mudar a nossa atitude face ao trabalho e face aos outros.Sem choque cultural de pragmatismo, simplicidade, pensamento positivo e vontade de andar para a frente, nada disto mudará. “Sem choque cultural não haverá convergência com a Europa e será sempre verdade o que dizem os brasileiros: Primeiro vai-se a Portugal, depois viaja-se para a Europa”.

quarta-feira, 4 de março de 2009

O Tsunami Americano

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Em 24 de Julho de 2002 escrevi um artigo no Diário Económico que hoje voltei a consultar e que resolvi partilhar. Naquela altura os sinais de uma crise económica e a própria situação em muitas economias eram preocupantes e apontavam para uma depressão sem precedentes. Tal facto não se veio a verificar no imediato e as economias, em particular a Americana, mantiveram-se anémicas mas em funcionamento.

A guerra do Iraque, a desvalorização do dólar, o crescimento exponencial da China e a consequente compra de divida americana, a continuada descida das taxas de juro e o incentivo ao crédito contribuíram para atenuar/adiar a crise que parecia iminente e que veio a explodir, em todo o seu esplendor, no ano de 2008, seis anos após o artigo que aqui vos deixo:

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::::::::::::::::::::::::::::::::O Tsunami Americano

Estamos hoje perante a primeira crise económica do século XXI, mais uma das consequências do 11 de Setembro de 2001 data mítica que ainda povoa o imaginário colectivo do mundo desenvolvido. É certo que a crise económica tinha sido desencadeada muito antes disto mas é indiscutível que este acontecimento veio despoletar um sentimento de pavor, de desconfiança e de fuga sem precedentes que acelerou, consideravelmente, o processo de deterioração económica.


As economias desenvolvidas viveram nos últimos anos um período de assinalável prosperidade e crescimento, as doutrinas de mercado e as ideologias liberais que fizeram escola nos Estados Unidos foram disseminadas de forma crescente por todas as economias de mercado. A criação de valor para o accionista, o adopção de critérios contabilístico - financeiros inovadores, a euforia das fusões e aquisições, a desregulamentação da maioria das industrias, a febre da internet, a fúria consumista das stock-options, o expoente máximo do mercado – o Nasdaq.
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Mas na realidade durante a 2ª metade da década de 90 o mundo viveu iludido por um sentimento de facilitismo, por uma prosperidade fictícia, por um crescimento sem sustentação. Criou-se para a economia Americana o mito do gigante com pés de barro, sustentado por uma teia de cumplicidades, mentiras e estatísticas maquilhadas, enquanto que na Europa os governos socialistas apanhavam a onda e dedicavam-se ao que melhor sabem fazer – esbanjar dinheiro. Portugal, França, Alemanha, Itália, viveram acima das suas capacidades e gastaram demais quando o recomendável seria contenção, reformas e liderança forte. Neste momento os castelos de areia e os oásis de prosperidade desapareceram e a realidade que se nos depara é de uma crueza demolidora.
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Espreita no horizonte, qual algoz furibundo, uma crise sem precedentes só talvez equiparável ao holocausto económico de 1929. Trata-se de uma crise que vem abalar os alicerces do liberalismo moderno, que emana do tecido empresarial e que é acompanhada por um sentimento de pavor social generalizado.
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Poderemos estar perante um importante retrocesso do modelo de economia de mercado assente no “laissez-faire” do capitalismo. Uma situação deste tipo poderá ter consequências decisivas sobre a forma como as economias encaram o investimento, sobre o papel dos governos e o seu grau de intervenção nas economias, sobre a maneira de fazer negócios dentro e fora de fronteiras, talvez estejamos a caminhar para uma economia mundial sem ímpeto, sem dinamismo e fechada sobre si própria.
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Os críticos indefectíveis do modelo corporativo americano rejubilam com a perspectiva de pela primeira vez terem a razão do seu lado. A descredibilização do sistema financeiro, o desmoronamento dos mercados, a crescente crise de liquidez, os níveis mínimos das taxas de juro e agora a tendência confirmada de desvalorização do dólar, vêm por em causa o modelo de desenvolvimento Americano.
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A queda do comunismo e o “boom” americano dos anos 90 foram decisivos para a criação da ideia de que o modelo de negócio americano constituía o padrão a aplicar a qualquer país. As crises financeiras na Ásia, América Latina e Rússia, a falência do estado providência Europeu, o desmoronamento do Japão, foram factores decisivos para a credibilização Americana consolidada pela influência, o rigor e a exigência de organizações como o FMI, o Banco Mundial e a própria Reserva Federal.
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Neste momento existe uma forte possibilidade de os Estados Unidos entrarem numa recessão da qual ainda não se haviam libertado totalmente. A desvalorização continuada do dólar, este ano já se desvalorizou cerca de 10%, pode significar uma grande mudança. O perigo da desvalorização pode amedrontar os consumidores Americanos, os motores da economia mundial dos últimos anos. Segundo George Soros “as tendências nos mercados cambiais tendem a manter-se vários anos e aparecem acompanhadas de grandes mudanças”. Neste momento os maiores aforradores mundiais observam com reticências a inacção da Administração Americana e começam a retirar os seus fundos dos E.U..
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A economia norte-americana não tem já grandes instrumentos para vencer uma destruição acentuada de liquidez. As taxas de juro de referência da Reserva Federal estão nos seus níveis mínimos e a última arma de choque expansionista está já em acção, a desvalorização do dólar. “O pesadelo dos pesadelos é ver os Estados Unidos apanhado na armadilha em que está o Japão há mais de uma década. Foi uma crise bolsista no início dos anos 90, contagiada aos bancos, que deixou o Japão numa deflação quase crónica.”
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Enquanto isso a Europa vive sobressaltada pelo fantasma do Pacto de Estabilidade, qual camisa de forças que neutraliza todo e qualquer esforço de revitalização económica. O equilíbrio orçamental, a transparência das contas, o cumprimento de critérios contabilísticos claros devem constituir práticas inerentes ao funcionamento de qualquer estado/governo em qualquer economia. Mas será um erro centrar os esforços de uma governação no equilíbrio das contas públicas enquanto a economia definha a olhos vistos, as empresas despedem e reduzem custos até ao limite do aceitável para a sua sobrevivência e as pessoas contam os tostões.
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A economia Americana vai, certamente, deixar de ser o motor da economia mundial, como acontecia até aqui, mas acredito que existe, apesar de tudo, uma janela de oportunidade para o aparecimento de um modelo de negócio Europeu, um misto de “capitalismo selvagem” e “estado empresário” onde a tónica deverá ser sempre, a de um estado mais regulador, mais informado, mais eficiente e mais credível.
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Estou certo de que o agravamento da situação económica mundial, com o prenúncio de uma nova recessão nos Estados Unidos, obrigará a União Europeia a rever, rapidamente, os critérios subjacentes ao Pacto de Estabilidade, tentando assim minimizar os efeitos do “Tsunami” Americano.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Recessão, Mentiras e Medo

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O Instituto Nacional de Estatística revelou há momentos os números do Produto Interno Bruto português para o quarto trimestre de 2008.

A incerteza, a expectativa e a esperança deram lugar à dura realidade. A economia portuguesa registou o terceiro pior desempenho entre os países membros da União Europeia, com o PIB a contrair 2,1%, em termos homólogos. Portugal ocupa o terceiro lugar, tanto numa análise homóloga, como em relação aos números do trimestre anterior.


Com contracções mais acentuadas que a portuguesa está apenas a Itália, que mostrou uma diminuição homóloga de 2,6% e a Letónia, onde o PIB diminuiu 10,5% (variação não ajustada sazonalmente).


Segundo o Jornal de Negócios, “a queda de 2% no produto interno bruto português (PIB) no quarto trimestre, face aos três meses anteriores, foi a mais intensa desde o primeiro trimestre do ano de 1984, altura em que o FMI teve que intervir. O PIB recuou 2,1% em termos homólogos e 2% contra o terceiro trimestre do ano passado. Esta queda na evolução em cadeia do PIB português é a mais grave desde os primeiros três meses de 1984”.


É verdade que a crise abala praticamente todas as economias desenvolvidas. É verdade que os nossos principais importadores, a Alemanha e a Espanha, caem no quarto trimestre -1,6% e -0,7% respectivamente. É verdade que não existe coordenação ao nível de UE para atacar estes problemas. Mas é verdade também que nos iludiram com anúncios de empresas de sucesso, com referências à solidez da nossa economia, com a solução miraculosa do Magalhães, com a aposta salvadora das relações económicas com as “democracias” da Venezuela, Angola e Líbia, com o “show-off” mediático constante, com o simplex e o plano tecnológico, com a mania de parecermos o que não somos e a necessidade de desviar as atenções para questões laterais e acessórias.

Viveremos iludidos enquanto existir crédito para salvar as empresas que as leis do mercado condenaram à falência, enquanto não formos capazes de replicar dentro de fronteiras os níveis de produtividade que alcançamos no estrangeiro, enquanto não aproveitarmos o conhecimento daqueles que estão mais desenvolvidos que nós, enquanto não tirarmos devido partido da lusofonia e dos milhares de portugueses que se encontram por esse mundo fora e que estarão decerto disponíveis para ajudar o seu país. Viveremos iludidos enquanto a nossa arrogância se sobrepuser à nossa necessidade de aprender, enquanto os interesses pessoais e políticos forem mais fortes do que a necessidade de salvar o país.

Mais do que a recessão, preocupa-me a ausência de alternativas, a inexistência de visão, a descrença relativamente à capacidade político-governativa para ultrapassar as dificuldades. Estou convencido de que o que está em causa, neste momento, é o nosso modelo de desenvolvimento, a nossa estratégia de crescimento, as nossas opções de negócio, as apostas da nossa economia. Vivemos de uma economia com pés de barro, sem sustentabilidade, parasita do estado, sem rasgos de criatividade, sem assomos de coragem. Nestas condições, dificilmente conseguiremos potenciar o crescimento e assegurar uma clara e sustentada melhoria de vida às nossas populações; sem isto continuaremos anémicos e depressivos, mas agora com a agravante tenebrosa da situação económica mundial.

Enquanto a recessão se instala, o poder tentacular do estado agiganta-se para gáudio doentio de algumas forças políticas. O dinheiro flui sem critérios aparentes, os subsídios multiplicam-se em desespero e, enquanto houver financiamento, a nossa sobrevivência adiar-se-á até à agonia final.

Caminhamos para um estádio em que praticamente todos os portugueses passam a ter uma conta corrente com o estado que tudo controla, com o estado que tudo domina, com o estado que tudo agrega e desta forma o medo passará a constituir o denominador comum da nossa sociedade democrática.


Dificilmente imaginei possível que, em pleno século XXI, a qualidade de vida se agravasse a olhos vistos, o produto caísse a pique e acima de tudo, existisse um sentimento de medo e de receio generalizados. Os portugueses hoje sentem medo de falar, receio de se expressarem livremente e pavor de represálias. Perceberam que o poder político instalado é absoluto e se encontra apoiado num sistema de justiça parcial e influenciável.

O país precisa de uma alternativa. Os portugueses exigem uma mudança. Portugal tem que mudar e cabe-nos a todos participar neste processo. Pende sobre o principal partido da oposição uma responsabilidade enorme e uma obrigação imensa. A obrigação de apresentar uma alternativa credível, a obrigação de colocar os interesses dos portugueses à frente dos interesses partidários e pessoais, a obrigação de fazer mais e melhor, a obrigação de não vacilar, a obrigação de não errar e a humildade para trabalhar ao serviço do país e dos portugueses.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Um Desígnio para Portugal

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É com profunda apreensão e crescente preocupação que assistimos à sangria diária de despedimentos que afectam todas as economias, sem excepção. Da imparável economia chinesa até à moribunda economia islandesa, da esperançosa economia americana até à agonizante economia inglesa, da sólida economia alemã até à pálida economia espanhola. Todos sofrem os efeitos da recessão, todos procuram tomar medidas para a combater mas todas se revelam inconsequentes ou paliativas.
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A situação é preocupante, os sinais são aterradores e colocam em perigo a expectativa de crescimento e a evolução do nível de vida das populações, em todo o mundo. Este ano apenas, o desemprego subirá em 30 a 40 milhões e estima-se que o número de desempregados atinja os 500 milhões de indivíduos. Em Portugal, a taxa de desemprego deve já ter superado os 8% e esta situação pode ainda agravar-se até 2010. O governo assumiu finalmente uma taxa de desemprego de 8,5% para 2009 - previsão idêntica, aliás, à da OCDE -, e reconhece assim que o mercado de trabalho vai enfrentar uma das situações mais preocupantes das últimas décadas. “A taxa prevista corresponde ao valor mais alto dos últimos 23 anos, segundo dados da Comissão Europeia, baseados nas definições do Eurostat. Associada a este cenário está a projecção de uma quebra de 0,7% no número de empregados, o que se traduz na perda de pelo menos 36 mil postos de trabalho.”

Nem a mão protectora do estado, nem a dinâmica dos mercados parecem conseguir salvar as famílias deste drama dos tempos presentes. Os governos desdobram-se em pacotes, multiplicam-se em programas, disparam os incentivos mas, infelizmente, a sensação de retrocesso temporal, de regressão dramática em termos de ideais, de objectivos, de qualidade de vida, de expectativas, constituem uma realidade inexorável.

Os últimos dias em termos meteorológicos não parecem ajudar. A chuva permanente, o nevoeiro constante, a escuridão depressiva contribuem para um estado de espírito desesperante. Parece que não existe esperança, parece que se instalou uma resignação doentia e continuada e que o futuro deixou de constituir uma fonte de ilusões de progresso e passou a apresentar-se como um pesadelo de desassossegos.

Curiosamente num cenário como este é cada vez mais notória a incapacidade, a inconsequência, a irrelevância, o total alheamento que transmitem os nossos responsáveis políticos. Por cá discute-se tudo menos as medidas, as propostas, as opções para combater a “peste bobónica” que se instalou.

O caso Freeport domina as notícias e ajudou a instalar a desconfiança, a absoluta ausência de credibilidade, a aldrabice, a tentativa de ludibriar, a preocupação com a imagem, a gestão meticulosa da informação. Vale tudo para continuar no poder, todos os argumentos são válidos, para tudo existe uma desculpa, para tudo existe um lado positivo, um lado rosa. Infelizmente, a inconsequência e a parcialidade ficaram bem patentes e são cada vez mais uma evidência do nosso sistema de justiça.

Os desígnios que se colocam para os próximos quatro anos são a nova proposta de regionalização e o casamento dos homossexuais. No primeiro caso, mais uma vez, a tentativa de formalizar uma realidade burocrática que asfixia o país agora sob a forma de regiões e poderes locais; barões e baronetes paroquiais de olhos postos no seu umbigo e apaniguados políticos de terceira categoria. No segundo caso, uma questão social eleita ícone de marketing politico e utilizada, pura e simplesmente, para fazer face a interesses partidários irresponsáveis e de curto prazo.

Mas infelizmente, a nossa classe politica personifica um deserto de ideias, uma ausência total de desígnios, uma total incapacidade para inovar, um comodismo transversal. É confrangedor assistir a debates na Assembleia da República. O circo da democracia levado ao expoente máximo da hilariedade, da incompetência e do interesse próprio. Surpreende-me a falta de preparação, a ausência de profissionalismo, as temáticas debatidas pela rama, a ausência de alternativas, a massificação dos “sound bytes” inconsequentes, a pequena política, a conversa de café.

Onde estão os desígnios nacionais? Quem nos pode transmitir confiança, força, segurança e esperança no futuro? Onde está a garra para construir, a vontade de arregaçar as mangas e trabalhar? Onde estão os programas efectivos e consequentes para combater a crise social? Onde estão as soluções do estado para empregar pessoas, para dar trabalho? António Barreto no seu último artigo do Público faz sugestões curiosas de medidas, tipo “New Deal” para combater a crise.

É necessário criar as condições para que o mercado funcione, é necessário repensar o nosso modelo económico, é necessário requalificar o nosso tecido industrial, apostar na qualificação dos nossos recursos e promover o empreendorismo.
Os Estados Unidos vão lançar um colossal programa de investimentos públicos em simultâneo com uma redução significativa da carga fiscal actuando assim, ao nível da oferta e da procura. A Europa deve acompanhar estas medidas, deve tirar lições da crise Japonesa dos anos 90, repiscar algumas das medidas do “New Deal” de Roosevelt e por último, exigir mais e sempre mais dos seus políticos e do regime político que escolheu como seu – a democracia.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Diplomacia Inteligente

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(Deixo o meu artigo publicado este fim de semana no Semanário Sol)

Apesar dos oito graus negativos do passado dia 20, milhares de pessoas assistiram à cerimónia da tomada de posse do novo Presidente Americano. Os relvados amarelecidos do Mall, a Pennsylvania Avenue e Lafayette Square transbordavam de vida, de entusiasmo e, acima de tudo, de esperança e de expectativa em relação ao futuro.

Nunca na história do mundo se esperou tanto de um só homem e da sua capacidade para governar e conduzir uma nação. Obama tem uma responsabilidade gigantesca perante os americanos e, curiosamente, perante o mundo que o admira, que o observa e que o copia.

Acabámos de entrar num novo começo (“a new begining”); a partir daqui os americanos vão inaugurar uma nova forma de fazer diplomacia, uma nova forma de gerir a imagem, uma nova atitude perante o mundo e uma nova forma de lidar com os seus aliados. Hillary Clinton denominou esta nova postura como “smart power” por oposição ao “hard power” de George W. Bush. Esta não é uma classificação nova, foi referida pela primeira vez por Suzanne Nossel na revista Foreign Affairs em 2004 e é também defendida por variados pensadores políticos, como Joseph S. Nye, Jr., Professor de Relações Internacionais na Universidade de Harvard. Os livros, filmes, canções, ideais, diplomacia e autoridade moral por oposição às armas, bombas, tanques, e sangue.

Hillary, na sua audição perante o Comité de Relações Internacionais do Senado, referia justamente a necessidade de utilizar todas as ferramentas ao seu alcance; diplomáticas, económicas, militares, politicas, legais e culturais para, em combinação ou isoladamente, as adaptar da forma mais adequada a cada situação. Referia, em súmula, que “with smart power, diplomacy will be the vanguard of our foreign policy”.

A Secretária de Estado teve a humildade de reconhecer aquilo que é uma evidência para o mundo e que se acentuou de forma significativa com o autismo e a obsessão ideológica da anterior administração. A América não pode ter a pretensão de resolver os problemas do mundo sozinha, nem de querer impor ao mundo a sua vontade e a sua maneira de estar, mas o mundo também não pode querer resolver as suas dificuldades sem a participação dos Estados Unidos.

Constitui uma evidência que os Estados Unidos foram bem sucedidos sempre que lideraram coligações com desígnios comuns e consensuais. Um trabalho bem feito nesta matéria permitiu aos Americanos consolidarem o seu prestígio como um referência para a segurança mundial e, acima de tudo, garantia da democracia e da liberdade. Este património foi delapidado pela administração cessante. As circunstâncias, é certo, foram muito particulares. O 11 de Setembro abriu uma ferida com consequências tremendas para o povo americano que justificou muito dos esforços iniciais mas que a partir de determinada altura serviu para alimentar uma vendeta idiológica incontrolável.

A actual crise mundial constitui um exemplo desta evidência. Todos os países, sem excepção aguardaram e aguardam com expectativa e esperança as decisões da nova administração. Obama tem aqui uma oportunidade magistral de definir as regras, estabelecer os objectivos e assumir uma visão para o futuro que será certamente seguida por todos. A União Europeia constitui aliás, o exemplo vivo desta realidade, com os principais protagonistas a aguardarem que os Estados Unidos definam o rumo a seguir.

A aposta numa diplomacia inteligente, mais do que uma politica alternativa ou uma estratégia inovadora, constitui uma necessidade e uma obrigação para esta Administração. A crise financeira e a situação extrema a que chegou a economia americana obrigam a reduções significativas de gastos, em termos da defesa, e a uma optimização profunda das forças, em cenário de guerra.

Em 2007 apenas, os gastos do Departamento da Defesa chegaram a $500 biliões de dólares, excluindo os gastos com a guerra no Irão e no Afeganistão. A manutenção numa base permanente de um exército de 1,5 milhões de homens e o crescimento continuado da indústria da defesa contribuem para que estes números representem cerca de 40% a 50% dos gastos militares do mundo.

É fundamental rever esta situação sem colocar em perigo a segurança nacional, a luta contra o terrorismo ou os valores que suportam a democracia americana. Vai ser necessário rever o modelo de relacionamento com aliados e adversários, repensar o papel da Nato e reequacionar o equilíbrio de forças e o processo de decisão do Conselho de Segurança das Nações Unidos.

Alterações a este nível implicam impactos profundos e riscos acrescidos. É necessário considerar o impacto financeiro sobre a indústria do armamento, a redução do emprego militar, a necessidade de partilhar informação classificada, a necessidade de aumentar o investimento em investigação militar de ponta e, possivelmente a maior das dificuldades, a necessidade de confiar em amigos e aliados. Mas os resultados esperados podem ser grandiosos; reduções significativas do orçamento de defesa, melhoria das relações com aliados, melhor aceitação internacional em caso de acções militares no estrangeiro, melhor conhecimento e solidariedade da opinião pública mundial e maior coordenação e eficiência no campo de batalha.

Vivemos hoje num ambiente global. A globalização aproxima-nos cada vez mais e, por essa razão, este constitui o momento ideal para utilizar a diplomacia em vez da força, a inteligência em vez da teimosia, o tacticismo em vez do unilateralismo.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

“Chasing the Flame”

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“Chasing the Flame” é o livro de Samantha Power sobre a vida e o trabalho de Sérgio Vieira de Mello; uma biografia exaustiva e trabalhada sobre a admirável trajectória do diplomata brasileiro, os cargos que ocupou, a sua envolvente politica, humana e familiar, os seus ideais, as suas preocupações e motivações, as relações humanas, sua mais valia, a sua capacidade negocial e a sedução como arma de combate.

Sérgio Vieira de Mello encarna alguns dos melhores valores que inspiraram a fundação da ONU: alguém que dedicou toda a sua vida a uma causa e a um ideal. Em todas as zonas de conflito em que actuou ao longo dos seus 34 anos de carreira na ONU - Bangladesh, Sudão, Moçambique, Líbano, Ruanda, Kosovo, Timor Leste e Iraque –, Vieira de Mello mostrou a mesma preocupação com a dignidade das vítimas da guerra, do desterro e da fome. Um homem corajoso e lutador que viveu também o dilema da incapacidade e das limitações da ONU e que nos revela a relativa impotência da organização diante das grandes catástrofes humanas da história recente.

Sem autonomia de combate, as forças de paz da ONU são muitas vezes chamadas para missões paliativas, nas quais se limitam a "monitorar" massacres em curso. As determinações do Conselho de Segurança revelam-se frequentemente vagas, porque os países-membros não se querem comprometer com linhas de acção claras. Um exemplo rico de informação sobre esta temática é a sua missão de 1982, ao lado das forças de paz no Líbano – a invasão do país por Israel em desacordo com as resoluções da ONU, constituiu uma dura decepção.

“Chasing the Flame” é um livro fascinante que nos ajuda a perceber melhor alguns dos mais relevantes conflitos internacionais, os bastidores da politica mundial, o jogo de poderes das Nações Unidos e, mais do que isso, a hipocrisia e o cinismo que regem as relações entre os países e entre os povos; ao fim e ao cabo a verdadeira natureza das relações humanas.


Vieira de Mello é também um produto do Maio de 68 (participou nos protestos estudantis e foi gravemente ferido), um rebelde idealista com uma sólida formação de esquerda e com uma matriz claramente francófona, o lado europeu da ONU por oposição ao lado anglosaxónico. Vieira de Mello era um pensador dos tempos modernos, um verdadeiro Indiana Jones da diplomacia, com uma sólida formação filosófica. Tinha um Mestrado e um Doutoramento em Filosofia pela Sorbonne (Doctorat d’état) com o título - “Civitas Maxima: Origins, Foundations, and Philosophical and Practical Significance of the Supranationality”. Nele apresenta-nos a sua própria versão de uma sociedade utópica igualitária e introduz uma teoria afirmativa do universalismo baseado no respeito mútuo entre países.

Samantha Power descreve-nos de forma meticulosa o diplomata e o homem, o filósofo e o operacional, o romântico e o solidário, o utópico e o pragmático, o idealista e o lutador.

Curiosamente, esta americana de origem irlandesa é uma das principais ideólogas da politica externa preconizada pelo actual presidente Obama. Doutorada em Havard, professora de relações internacionais na Kennedy School of Government, directora do Carr Centre for Human Rights Policy, já foi correspondente de guerra e vencedora do Pulitzer com o seu livro - "A Problem from Hell: America and the Age of Genocide" (fala-nos sobre a forma como a América lidou com o genocídio ao longo do século XX, incluindo os massacres do Ruanda, Bósnia e Darfur). Power simboliza a nova forma de abordar a diplomacia americana, representa um certo regresso a um tipo de diplomacia Clinton, que foi tão bem descrita por Hillary como “smart power”.

Enquanto concluía o livro sobre Sérgio, fechada em casa, só interrompia o trabalho quando duas pessoas lhe ligavam: a mãe e Obama ("It"s Obama. Call me"). Em 2004, ficou tão impressionada com ele, que decidiu suspender as suas actividades académicas para ir ajudá-lo no Congresso. Regressou para ajudá-lo na campanha até à infeliz entrevista a um jornal escocês em que se referiu a Hillary Clinton como a “monstra”. Foi expulsa da campanha presidencial, pediu desculpa e ausentou-se durante uns tempos. A opinião unânime era de que Obama não passaria sem a sua ajuda e assim aconteceu. Samantha Power voltou, sorrateiramente, para integrar a equipa de transição de Obama.

Hoje dia 30 de Janeiro, foi nomeada “Senior Director of Multi-lateral Affairs at the National Security Council” ou seja, terá um papel decisivo na formulação da política externa americana nas Nações Unidas, no G-8 e noutros fóruns globais.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

“Ivy Crises”

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A crise financeira que devasta fortunas, desfaz empresas, arruina instituições financeiras, arrasta milhões para o desemprego, leva gestores ao suicídio, famílias ao desespero chegou também às universidades mais prestigiadas do mundo.
:: A Ivy League representa a nata do ensino universitário americano e constitui uma referência de excelência académica, de selectividade, de elitismo e de sucesso. Neste grupo estão oito universidades privadas do nordeste americano, universidades coloniais, universidades ancestrais que constituem a matriz da cultura anglo-saxónica que forma os Estados Unidos da América. A Universidade de Brown, em Providence; a Universidade de Columbia, em Nova Iorque; a Universidade de Cornell, em Ithaca, Nova Iorque; o Dartmouth College, em Hanover, New Hampshire; a Universidade de Harvard, em Cambridge, Massachusetts; a Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia; a Universidade de Princeton, em Princeton, New Jersey e a Universidade de Yale, em New Haven, Connecticut.

O termo Ivy League aparece ligado ao desporto e torna-se oficial em 1954, com a criação da NCAA Division, período em que a atenção estava muito focalizada na competição desportiva entre universidades. Segundo o History Dictionary, o nome Ivy League deriva das heras verdes que revestem os prédios históricos dessas instituições, num claro sinal da sua ancestralidade. As universidades da Ivy League são também chamadas "Ancient Eight" ("as oito antigas") ou simplesmente Ivies.

Esta liga de ouro possui e gere legados (endowments) avaliados em biliões de dólares. Harvard está à cabeça e possui, ou melhor possuía o maior legado do mundo, avaliado em $37 biliões de dólares, no início de 2008.

É uma honra e um orgulho poder ostentar no curriculum o nome de Harvard. A possibilidade de aprender com os melhores dos melhores, a oportunidade de conhecer a vanguarda do conhecimento, lidar de perto com alguns dos melhores professores do mundo, trabalhar com alguns dos mais brilhantes estudantes constituem uma oportunidade única acessível a muito poucos.

(Franklin Roosevelt na fotografia)

Harvard, a mais antiga e a mais rica, foi pioneira na criação de um modelo de diversificação de investimentos mais tarde copiado por outras universidades. Enquanto muitos investiam em acções e obrigações, os executivos da Harvard Management C. aplicavam o legado bilionário em florestas, private equity, start-ups e capital de risco. Se, durante vários anos, os níveis de rentabilidade compensaram - 13,8% de rentabilidade anual, ou seja, duas ou três vezes mais do que o mercado de acções; a questão agora é a de saber se este modelo amorteceu ou potenciou os efeitos da crise dos mercados.

Segundo as últimas evidências e os cálculos da Moody's Investors Service (cerca de 30% de perda nos legados de colégios e universidades) isto significaria uma perda de $11 biliões de dólares para Harvard.

Estes dados não são confirmados pela universidade, mas os factos e as práticas apontam para perdas avultadas. O recente email da presidente para professores, alunos, alumni e staff refere explicitamente "unprecedented endowment losses" e revela que a escola procura outras formas de reduzir custos "We have to think not just about what more we might wish to do, but what we might do at a different pace or do without"

Curiosamente, e apesar da necessidade de reduzir custos, mais uma vez num momento de dificuldade regista-se a intenção expressa da universidade em intensificar os programas de ajuda que permitem que as famílias com rendimentos anuais inferiores a $60,000 dólares não paguem nada para enviar os seus filhos para Harvard, se o mérito o justificar.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

“Tears of Joy”

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É com enorme emoção e imensa saudade que acompanho as festividades da cerimónia de inauguração e a tomada de posse do novo presidente. Reconheço os lugares, identifico-me com os ideais, sinto as pessoas, vibro com as imagens. Washington está no meu coração e os Estados Unidos são indiscutivelmente a minha pátria de eleição.

Hoje mais do que nunca, sinto-me americano, partilho a esperança e a emoção que se fazem sentir, comungo da mesma matriz democrática e comovo-me com a mais pura das manifestações de democracia.

O frio gélido que se faz sentir não impediu que mais de dois milhões de pessoas invadissem a cidade para participar nesta magnífica cerimónia, repleta de simbolismo e de personalidade, que envergonha as democracias seculares do velho continente.

Esta é a verdadeira encarnação do espírito dos “Founding Fathers”, esta é a verdadeira encarnação do “american dream” e mostra-nos que no país mais desenvolvido do mundo existe igualdade de direitos e de oportunidades, mostra-nos que a maior democracia funciona e que o direito à liberdade e a recompensa pela mérito e pelo esforço do trabalho são uma realidade. Só assim foi possível, como disse Obama, a um filho de emigrante negro, que há sessenta anos atrás poderia não ser sequer servido num restaurante, ser hoje empossado no cargo de Presidente dos Estados Unidos da América.

Um discurso de transformação e não de transição, um discurso de força e de convicção e não de conforto, um discurso de ambição e não de acomodação. Este “Inaugural Adress” representa o inicio de uma nova era, a chegada ao poder de uma nova geração. Deixo-vos algumas das mais marcantes passagens deste discurso:

“The words have been spoken during rising tides of prosperity and the still waters of peace. Yet, every so often the oath is taken amidst gathering clouds and raging storms. At these moments, America has carried on not simply because of the skill or vision of those in high office, but because We the People have remained faithful to the ideals of our forbearers, and true to our founding documents.”

“Today I say to you that the challenges we face are real, they are serious and they are many. They will not be met easily or in a short span of time. But know this America: They will be met.”

“In reaffirming the greatness of our nation, we understand that greatness is never a given. It must be earned. Our journey has never been one of shortcuts or settling for less.”

“Now, there are some who question the scale of our ambitions, who suggest that our system cannot tolerate too many big plans. Their memories are short, for they have forgotten what this country has already done, what free men and women can achieve when imagination is joined to common purpose and necessity to courage.”

“Nor is the question before us whether the market is a force for good or ill. Its power to generate wealth and expand freedom is unmatched.”

“This is the meaning of our liberty and our creed, why men and women and children of every race and every faith can join in celebration across this magnificent mall. And why a man whose father less than 60 years ago might not have been served at a local restaurant can now stand before you to take a most sacred oath.”

“America, in the face of our common dangers, in this winter of our hardship, let us remember these timeless words; with hope and virtue, let us brave once more the icy currents, and endure what storms may come; let it be said by our children's children that when we were tested we refused to let this journey end, that we did not turn back nor did we falter; and with eyes fixed on the horizon and God's grace upon us, we carried forth that great gift of freedom and delivered it safely to future generations.”