sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A Paz para Obama

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O Comité Nobel Norueguês atribuiu há momentos o Prémio Nobel da Paz a Barack Obama.
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Segundo as palavras do seu Presidente, Thorbjoern Jagland, este prémio é lhe atribuído “for his extraordinary efforts to strengthen international diplomacy and cooperation between peoples. Only very rarely has a person to the same extent as Obama captured the world's attention and given its people hope for a better future. His diplomacy is founded in the concept that those who are to lead the world must do so on the basis of values and attitudes that are shared by the majority of the world's population."


Não posso estar mais de acordo com estas palavras e com a atribuição deste galardão. Obama junta-se, merecidamente, a nomes como os de Jean Henri Dunant, fundador da Cruz Vermelha e Frédéric Passy, fundador da Sociedade Francesa para a Paz, os primeiros galardoados em 1901. Martin Luther King, pela luta contra o racismo nos Estados Unidos de 60; Madre Teresa de Calcutá, pela sua luta contra a pobreza na Índia; Aung San Suu Kyi, enquanto activista birmanesa pelos direitos humanos, Nelson Mandela, pelo seu trabalho contra o apartheid; Kofi Annan e a Organização das Nações Unidas (ONU), pela dedicação a um mundo mais pacifista. Para referir apenas alguns dos mais relevantes galardoados das últimas décadas.


Recordo hoje a visita marcante de Obama a Berlim, em 24 de Julho de 2008, ainda antes de ser eleito Presidente dos Estados Unidos e que constituiu um marco decisivo para a sua imagem de renovação, de determinação, de pacifismo e de amizade. Este foi o prenúncio de uma eleição marcante e a escolha de um homem singular que veio mudar radicalmente a postura e o posicionamento dos Estados Unidos no mundo. Há muito que a humanidade anciava por alguém com estas características e a empatia e a transparência deste homem foram decisivas para que o mundo se deixasse seduzir.

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Não há precedentes para a recepção entusiasmada que Barack Obama recebeu dos 200 mil alemães que se aglomeraram em frente à Coluna da Vitória para ouvi-lo. A visita a Berlim foi o ponto alto da sua turné mundial, sem dúvida um genial golpe de marketing para mostrá-lo como estadista e líder. Esteve no Iraque e defendeu a retirada das tropas americanas num ano e meio; no Afeganistão afirmou a centralidade daquela guerra no combate ao terrorismo; no Médio Oriente, assumiu o compromisso de mediar a paz entre Israel e os palestinos; na Europa, procura “derrubar muros e construir pontes”. A mensagem de Obama foi clara: a de que é um cidadão global, alguém com mentalidade ampla e capaz de liderar os Estados Unidos e o mundo num cenário de instabilidade e de crise.


Apesar da sua curta existência enquanto personalidade mundial, Obama já fez mais pelos Estados Unidos do que a maioria dos anteriores presidentes. Fazendo jus à herança dos Founding Fathers, a América precisava de alguém com este carisma, com esta visão e com esta capacidade de aproximar os povos. Mas Obama fez também, neste curto espaço de tempo, mais pelo mundo e pela paz do que qualquer outra personalidade conseguiu fazer até hoje.

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Deixo o comentário na altura feito pelo jornalista espanhol, Lluís Bassets, do El País, que não pode ser mais ilucidativo:
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"Obama es el presidente que más se parece a América y la América de Obama es la que más se parece al mundo, plural, joven, libre, ambiciosa, luchadora. Sólo este mitin de ayer en Berlín es el mayor acto de relaciones públicas americano de la historia reciente. Obama está restituyendo a Estados Unidos lo que Bush le ha quitado: la estima de quienes aman la libertad en el mundo, el aprecio y la amistad de los europeos".

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Takashi Murakami - o Warhol Japonês

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Conheci o trabalho de Takashi Murakami o ano passado, em New York, e fiquei surpreendido com a imaginação, a grandeza, a cor e o movimento das suas obras. Artista multifacetado, capaz de produzir em larga escala, pinturas, esculturas, campanhas publicitárias, obras digitais, utilizando tecnologias inovadoras, tapetes, t-shirts e porta-chaves.

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Murakami representa a industrialização da arte, a massificação da produção, mantendo elevados níveis de qualidade e preços astronómicos. Ele personifica a ausência de separação entre a “high” e a “low” arte, a utlização de temas populares e “pop culture” para os transformar em objectos, pinturas ou esculturas com significativa capacidade comercial. À semelhança de Damien Hirst, que transformou o mundo artístico com as suas instalações desconcertantes e sumptuosas, Murakami transformou e rejuvenesceu a arte figurativa contemporânea japonesa.
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Segundo Jeff Howe da revista “WIRED”: “Takashi Murakami is often billed as the next Andy Warhol. Like the American pop art icon, he fuses high and low, pulling imagery from consumer culture to produce visually arresting, highly original work. He is vigorously, ingeniously self-promotional. In the past few years, Murakami has swept across the US and Europe, receiving fawning media attention and exhibiting at big-name museums. But there's a key difference. Warhol took from the low and gave to the high. With ironic detachment, his work - paintings few could afford, films few could understand - appealed to an audience in on the joke. Murakami, on the other hand, takes from the low and gives to the high, the low, and everything in between. He makes paintings, sculptures, videos, T-shirts, key chains, mousepads, plush dolls, cell phone caddies, and, last but not least, $5,000 limited-edition Louis Vuitton handbags. Murakami's work hits all price points”.



A Tate Modern Art, em Londres, inaugura hoje uma exposição colectiva com várias obras de Murakami. “Pop Life: Art in a Material World” faz uma análise à forma como diferentes artistas, em particular desde os anos 80, se têm relacionado com os media, cultivando desta forma, as suas personalidades e criando as suas próprias marcas. Entre os artistas representados encontram-se Tracey Emin, Keith Haring, Damien Hirst, Martin Kippenberger, Jeff Koons, Takashi Murakami e Richard Prince.

A versatilidade e o empreendorismo de Murakami conseguem articular-se magistralmente, contribuindo para que as suas obras sejam, ao mesmo tempo, únicas e variadas, estejam nos mais prestigiados museus e nas mais exclusivas griffes de moda e no mais simples dos telemóveis ou no mais acessível dos brinquedos.

Murakami deve grande parte do seu sucesso à sua empresa “Kaikai Kiki”, um aglomerado de edifícios conhecido como “Hiropon Factory”, um campus nos arredores de Tokyo e um estúdio em Brooklyn, onde ele controla uma equipa de artistas e de assistentes multifacetados, capazes de desenvolver trabalhos especializados e altamente evoluídos tecnologicamente. Ele controla e acompanha os trabalhos desenvolvidos pela sua equipa e assegura a manutenção dos padrões artísticos a que nos habituou.

Apesar da aparente acessibilidade, as suas obras são verdadeiros tesouros artísticos, apenas acessíveis a muito poucos. As pinturas da sua última exposição venderam-se por $250,000 dólares e a sua conhecida escultura – “Mr. Pointy” exposta no Rockefeller Center, foi adquirida pela Christie's por $1.5 milhões de dólares. Como escreveu Jeff Howe, “a remarkable price for factory-produced art”.

Curiosamente ou nem tanto, Takashi Murakami fez parte da lista da “Time Magazine” das 100 pessoas mais influentes no mundo, em 2008. O único artista, neste campo, a ser referenciado.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

“Crisis” - a Arte da Negociação

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Assisti recentemente ao documentário “Crisis: Behind a Presidential Commitment” de Robert Drew, um documento histórico sobre a forma como o Presidente John Kennedy e o "Attorney General", seu irmão Robert, lidaram com a oposição do Governador George Wallace à integração racial na Universidade do Alabama.
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Em 1963, dois jovens negros decidiram matricular-se na universidade estadual do Alabama, enfrentando o poder instituído e desafiando os preconceitos racistas, ainda tão presentes nos estados do sul. James Hood e Vivian Malone revelaram a sua coragem e a sua determinação ao enfrentarem os interesses instalados, num estado conservador e tradicional, alimentados pelo primarismo de um Governador irresponsável.:

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A questão relevante colocou-se quando o Governador afirmou que ficaria na porta da universidade para impedir os dois jovens de entrarem e de se matricularem. O gesto por si só representava uma afronta directa à legislação federal de 1954, que abolia a segregação racial nos Estados Unidos e, consequentemente, o desrespeito pelo cumprimento de uma ordem judicial federal.
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É certo que o processo de implementação da legislação de 1954 demorou a sair do papel no sul, onde a resistência dos brancos era muito forte. Os primeiros anos da década de 1960 foram de fortíssima actividade do movimento dos direitos civis na região, com greves, boicotes, manifestações e marchas. Precisamente nos estados mais racistas, Alabama e Mississipi, os protestos quase sempre terminavam em pancadaria ou mesmo assassinatos, com a polícia fechando os olhos, enquanto o Ku Klux Klan e outros grupos extremistas cometiam os seus crimes.

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Robert Drew, de forma exemplar, retrata-nos, in loco, a maneira como os Kennedys lidaram com a crise, procurando equilibrar o seu compromisso com os direitos civis, com a necessidade de não perder apoio político no sul e com a preocupação de manter a ordem e minimizar os desacatos. O Presidente permitiu um acesso sem precedentes a Robert Drew e à sua equipa de filmagens, que conseguiram assim acompanhar o processo de decisão dos dois lados; esta é, aliás, uma das mais valias deste documentário.
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Uma sucessão de telefonemas entre o Presidente Kennedy, o “Attorney General” Robert Kennedy e o “Deputy Attorney General” Nicholas Katzenback, apresenta-nos um plano cuidadosamente articulado e coordenado, uma lição de estratégia política tão necessária para os dias que se vivem na cena portuguesa. Este é, sem dúvida, o trabalho mais íntimo e espontâneo alguma vez feito sobre JFK e RFK. Drew consegue captar a cumplicidade, a inteligência e a força destes irmãos, ao longo de todo o processo que os conduziu a uma assinalável vitória, em termos de direitos civis e igualdade racial.
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O Presidente encarregou Robert Kennedy do caso. No final, Wallace recuou quando a Casa Branca assumiu o controlo da Guarda Nacional do Alabama e mobilizou as tropas para garantir a matrícula dos estudantes. Em sinal de derrota, Wallace é deixado a espumar na sua irrelevância, mais um dinossauro cuja arrogância e a sobranceria conduziram à sua ruína.
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É difícil não nos impressionarmos com a enorme capacidade de articulação e negociação política de Robert, ou com o tom decidido de John ao fazer o célebre discurso de 11 de Junho de 1963, em que se dirige ao país para comentar o incidente no Alabama. Reiterando o seu compromisso inequívoco com os direitos civis, o Presidente, naquele seu tom determinado e emotivo, apela à liberdade de tratamento, à liberdade de oportunidades e à igualdade de direitos. Um discurso marcante que ainda hoje emociona.





Cinco meses depois de “Crisis”, Kennedy era assassinado em Dallas.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

“The Deeper They Bury Me, The Louder My Voice Becomes”

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Achei apropriado utilizar este título revolucionário para caracterizar o meu estado de espírito actual. Estamos em período pré-eleitoral, os ânimos estão agitados, a expectativa é grande, a incerteza, apesar de menor, continua a existir. Por tudo isto e mais. Porque sou um democrata e um apologista da liberdade e da igualdade de oportunidades, porque defendo a ética e luto pelos valores da justiça, do mérito e do progresso, jamais me calarei face à situação actual do nosso país.

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Descobri este título enquanto vagueava pelo site do New Museum, em New York. Em Junho passado, tive oportunidade de visitar este estonteante museu, no coração de Manhattan. Passeei-me pelos vários andares, deliciei-me com as instalações contestatárias, com as esculturas de arte contemporânea, com os murais desconfortáveis, quase chocantes.
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Este museu da modernidade, em pleno Lower East Side foi desenhado por Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa. Depois de dois anos de trabalhos, o New Museum reabriu no dia 1 de Dezembro de 2007. Este acontecimento, para além da óbvia importância no meio artístico, revestiu-se de um significado muito particular. A famosa zona da Bowery na baixa de Manhattan passou a conhecer uma nova vida, uma vez que foi a primeira vez que um acontecimento cultural desta envergadura teve lugar abaixo da Rua 14.
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O edifício que de fora parece bastante amplo, talvez pelo equilíbrio em altura da sua construção, feita em cubos sobrepostos, deslocados e forrados homogeneamente por uma malha metálica é, no interior dos andares onde se situam as galerias sem divisões, muito menos impressionante, mas harmonioso no seu despojamento e nos materiais sólidos e sóbrios. O último andar – uma enorme sala de festas com uma varanda em volta – e uma vista fabulosa que vai da zona baixa da Bowery e do Soho até aos edifícios altos do City Hall.

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“The Deeper They Bury Me, The Louder My Voice Becomes” é o título de uma exposição actual de um artista de origem portuguesa. Ricardo Gouveia, mais conhecido como Rigo 23 nasceu na ilha da Madeira em 1966 e ai viveu durante alguns anos até se instalar em San Francisco, na Califórnia. Estudou no “San Francisco Art Institute” e na “Stanford University” e é, actualmente, um dos mais conceituados artistas contestatários e planfletários do mundo.

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Rigo 23 tem exposto os seus trabalhos, nos últimos vinte anos, um pouco por todo o mundo. Murais, pinturas, esculturas, azulejos e placards de grandes dimensões, sempre estrategicamente posicionados de forma a permitir a discussão e a reflexão, numa sociedade virada para dentro e mais habituada a aceitar do que a contestar. As suas obras vivem enquanto objectos artísticos, mas funcionam sobretudo como intervenções públicas e manifestações contestatárias. A exposição actual é, mais uma vez, um questionar do status quo, um repto para uma mudança de políticas, para uma alteração de posturas.

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"The Deeper They Bury Me, The Louder My Voice Becomes” são as palavras de Herman Wallace, membro do grupo denominado Angola 3. Wallace, junto com Albert Woodfox, escreveram o primeiro capítulo do “Black Panther Party”, em 1971, na “Louisiana State Penitentiary” também conhecida como Angola. Robert H. King juntou-se-lhes depois de ser acusado, injustamente, de ter cometido um crime, no ano de 1972. Os três passaram a ser conhecidos como “The Angola 3”. Iniciaram então uma luta sem tréguas para uma reforma do sistema prisional. Organizaram greves de fome para garantir que as refeições eram servidas condignamente e não atiradas para o chão, lutaram pela protecção dos presos mais jovens, selvaticamente agredidos e abusados e mais do que tudo lutaram pela igualdade de direitos para todos os presos.

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Depois de 32 anos de prisão, 29 dos quais passados nas chamadas CCR (Closed Cell Restriction) durante 23 horas por dia. King foi absolvido e libertado em 2001. Rigo 23 estabeleceu uma relação de amizade com King, depois da sua libertação, e pintou em sua memória um mural no “San Francisco’s Civic Center” para comemorar a sua triunfante libertação. Wallace e Woodfox continuam encarcerados e em isolamento. King prossegue o incansável esforço pela sua libertação, através da partilha das suas experiências em universidades, escolas, museus e centros comunitários, um pouco por todo o mundo.
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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Eastwood em Gran Torino

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Este passado fim-de-semana tive oportunidade de assistir ao último filme de Clint Eastwood – Gran Torino. Eastwood não se cansa de nos brindar com filmes extraordinários e interpretações magistrais. Desta vez a temática é o racismo, a forma como lidamos com ele, e a crise de valores que afecta uma América suburbana em profunda transformação.

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Eastwood é Walt Kowalski, um ex-combatente da Guerra da Coreia e operário do ramo automóvel aposentado que passa os seus dias no alpendre de casa observando a vida que se aproxima do fim e a agitação do bairro. Toma cerveja, acaricia o seu cão e critica os seus vizinhos Hmong. Uma casa grande com um pátio modesto e uma grande garagem. É lá que se encontra a sua relíquia mais preciosa. O Ford Gran Torino, modelo 72, adquirido nos velhos e bons tempos da Ford, empresa onde trabalhou boa parte da sua vida. A cave da casa é, após a morte da mulher, o último reduto da nostalgia. Caixas velhas, álbuns de fotos e outras recordações espalhadas pelo chão.

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Os Hmong são um grupo étnico da região do sudeste Asiático que lutou ao lado dos americanos na Guerra da Coreia. A grande maioria veio para os Estados Unidos depois da invasão comunista do Laos, em 1975, provenientes de campos de refugiados na Tailândia. Ao primeiro grupo de 3466 refugiados foi concedido asilo, ao abrigo do “Refugee Assistance Act” de 1975. Nos anos seguintes, o número de refugiados aumentou e, em 1978, eram já trinta mil. A maioria destes grupos viria a fixar-se na Califórnia, Minnesota e Wisconsin.

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Clint Eastwood coloca-nos perante uma América suburbana que vê os seus valores em perigo. Um lugarejo com jovens sem respeito e sem noção dos valores, educados por adultos negligentes e passivos, de famílias fugazes e desunidas. O dilema de uma América profunda que se vê invadida por estrangeiros com culturas próprias e costumes particulares que vêm ocupar os reduzidos espaços, de puro americanismo que restam no país. Ao mesmo tempo, a Igreja debita o seu discurso tradicional e alienante, sem o mínimo conhecimento de causa.

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Na realidade, a visão amarga do protagonista serve apenas para expor um microcosmos social da sociedade americana, julgado pela óptica de uma pessoa que, se por um lado é preconceituosa e resistente às mudanças, por outro tem as suas razões intrínsecas.
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Na minha opinião, trata-se de um excelente filme sobre a solidão de um homem como escolha de vida, que se afasta de qualquer convívio convencional – ele não precisa de suportar uma família medíocre com quem não se identifica e que não o estima – para ficar só com os seus demónios, carregados desde a guerra em que participara, na juventude. Conservador clássico, é tocado pela injustiça que vê irromper ao seu lado, e é então que toda a grandeza do ser humano íntegro e decente se revela, magistral e tocante, na solução que encontra para si e para os outros.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

“New York Calling: From Blackout to Bloomberg”

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Várias vezes tenho falado aqui sobre Nova Iorque. É, aliás, inevitável falar sobre esta cidade carismática, acompanhar as suas transformações, seguir os seus caminhos, sorver a sua literatura, beber da sua música, vibrar com a sua cultura.


Desta vez, descobri um livro marcante sobre esta cidade. Na realidade, difícil será não encontrar vasta e abundante literatura sobre esta temática, mas a maioria, como é natural, leitura de cordel e folhetins para turista. “New York Calling: From Blackout to Bloomberg” é uma obra fascinante, editada, curiosamente, pelo filósofo marxista Marshall Berman e pelo poeta, jornalista e fotógrafo Brian Berger.
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Trata-se de uma colecção de 28 crónicas escritas por diferentes personalidades ligadas de algum modo à cidade e com mais de 200 fotografias que retratam, da forma menos institucional, esta metrópole inconfundível. Pessoas como a conhecida fotógrafa Margaret Morton, o jornalista político Tom Robbins ou o crítico gastronómico e cultural Robert Sietsema, escrevem sobre a cidade e dão-nos a conhecer o lado mais íntimo, a faceta mais soturna ou o espírito mais desconcertante desta metrópole.
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Através de uma viagem temporal, percorremos 30 anos e a leitura ajuda-nos a perceber a cidade como era, como foi e como é actualmente. Quem desejar conhecer a cidade por trás da cidade deve ler este livro. Segundo a apreciação do New York Times, estas crónicas abrem-nos para a dimensão do carácter, a extensão da mudança e o peso da personalidade desta cidade. "This is the backdrop for New York Calling . . . Through the lens of New York politics, music, art and counterculture, we hear several, often fascinating takes on essentially the same story: how the squalor, struggles, crime, drugs, and free expression of the 1970s and 1980s gave way to a cleaner and safer city in the subsequent two decades, but one in which commercial development has often trumped, protecting existing residents and preserving a rich past.

If not explicitly intended, the collection places a special emphasis on the Bronx, and the artistic movements spawned by the chaos of the 1970s. Particular attention is paid to graffiti art and the rise of hip-hop, which was ushered in by Grandmaster Flash's 1982 hit 'The Message'. Perhaps less revelatory - as writers often cover the subject today - are the numerous sections which pay homage to the bad-old East Village, where 'bodega' grocery stores sold dime bags of marijuana, and where - as one contributor remembers – 'no restaurants... stayed open past 6:00pm' . . . the essays, whether read discretely or as a complete work, offer a near-unforgettable impression of an era."

Deixo o descritivo na contracapa que antecipa o conteúdo fascinante: “Acclaimed historian Marshall Berman and journalist Brian Berger gather here a stellar group of writers and photographers who combine their energies to weave a rich tale of struggle, excitement, and wonder. John Strausbaugh explains how Uptown has taken over Downtown, as Tom Robbins examines the mayors and would-be mayors who have presided over the transformation. Margaret Morton chronicles the homeless, while Robert Atkins offers a personal view of the city’s gay culture and the devastating impact of aids. Anthony Haden-Guest and John Yau offer insiders’ views of the New York art world, while Brandon Stosuy and Allen Lowe recount their discoveries of the local rock and jazz scenes. Armond White and Leonard Greene approach African-American culture and civil rights from perspectives often marginalized in so-called polite conversation.
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Daily life in New York has its dramatic moments too. Luc Sante gives us glimpses of a city perpetually on the grift, Jean Thilmany and Philip Dray share secrets of Gotham’s ethnic enclaves, Richard Meltzer walks, Jim Knipfel rides the subways, and Robert Sietsema criss-crosses the city, indefatigably tasting everything from giant Nigerian tree snails to Fujianese turtles”

Curiosa é sobretudo a personagem de Marshall Berman. Comunista, intelectual, filósofo, professor de Ciência Política, controverso, insatisfeito. Um apreciador de Marx que se deixou encantar pela mística liberal e multicultural de New York.

Berman é professor da “City University of New York”, conhecida humoristicamente como a “Harvard dos pobres”, pela mistura de brilhantismo académico e origem humilde de muitos de seus alunos e professores, classificação na qual se enquadra bem. Alguém escreveu que “Harold Bloom é considerado um dos maiores críticos literários em actividade. A premissa básica de Blomm é de que o mundo pode ser explicado pela obra Shakespeareana. Pois bem, os marxistas também têm seu Harold Bloom. Trata-se de Marshall Berman. Assim como Blomm só vê sentido nas obras quando tomada a partir do prisma shakespereano, Berman só entende o mundo partir de Marx. Assim como o “Cânone Ocidental” é uma obra de louvor a Shakespeare, “Tudo o que é sólido se desmancha no ar” é uma obra de louvor a Marx. Não há Bloom sem Shakespeare. Não há Berman sem Marx”.
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Eu diria numa perspectiva mais terrena - não há pessoas perfeitas.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Início Pouco Promissor

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Dorothea Lange (1895-1965) é considerada a melhor fotógrafa americana de documentário, de sempre. Retratou magistralmente os efeitos sociais da Grande Depressão de 1929 sobre o americano rural, e as suas imagens constituem documentos históricos de valor incalculável que nos ajudam a compreender e a conhecer as verdadeiras consequências de um período de grandes carências.

O poder avassalador e a crueza das suas imagens retratam as dificuldades por que passaram milhares de americanos afectados pela crise económica e pela seca prolongada que dizimou as plantações verdejantes das planícies centrais, nos estados do Midwest. Lange acompanhou a enxurrada migratória das populações atingidas, em direcção à Califórnia e ao Arizona, sentiu as contrariedades e acompanhou as jornas de sol a sol.


A sua fotografia mais famosa, "Migrant Mother", que se encontra na Library of Congress, em Washington DC, foi tirada em 1936 a uma mulher do Oklahoma que trabalhava nos campos de ervilhas de Nipomo, na Califórnia. A mulher, uma viúva com sete filhos que sobrevivia alimentando-se de ervilhas apanhadas nos campos e de pássaros apanhados pelos seus filhos, cativa-nos e impressiona-nos pela sua face de sofrimento envolvida por três dos seus filhos, comove-nos pela dor, pelo alheamento e pelo olhar triste.
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Esta imagem tornou-se um símbolo daqueles que sofreram os efeitos devastadores da Depressão. Foi publicada no San Francisco News e permitiu que fosse dada uma ajuda ao campo de agricultores onde a mulher vivia. Segundo as palavras da própria Dorothea Lange publicadas na Popular Photography: “I did not ask her name or her history. She told me her age, that she was thirty-two. She said that they had been living on frozen vegetables from the surrounding fields, and birds that the children killed. She had just sold the tires from her car to buy food. There she sat in that lean-to tent with her children huddled around her, and seemed to know that my pictures might help her, and so she helped me. There was a sort of equality about it”.


John Steinbeck na escrita, à semelhança de Dorothea Lange na fotografia, retrata-nos também no seu romance, “As Vinhas da Ira” (Nobel da Literatura em 1962), como só ele sabe, a história de uma família de agricultores sem terra que migram do Midwest para a Califórnia, atravessando uma área paupérrima e semi-árida conhecida como Dust Bowl. Pelo caminho, encontram os escombros do sonho americano, a exploração e a violência dos grandes proprietários rurais e as condições aviltantes de acampamentos de trabalhadores temporários.
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Este brilhante clássico narra os aspectos gerais do problema, analisa a miséria humana, tanto de abastados proprietários de terras como dos emigrantes e conta-nos a saga da família Joad, em busca de uma vida melhor.
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As dificuldades hoje sentidas são diferentes, o grau e a dimensão da crise é inferior e os instrumentos de então eram incomparavelmente menos desenvolvidos do que os de hoje. Não existiam as actuais redes públicas de protecção social e a própria teoria económica tacteava em busca de instrumentos que pudessem lidar com uma crise daquela brutalidade.

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Obama enfrenta uma recessão menos pronunciada. Os pobres dispõem de redes de protecção criadas pelo New Deal ou pela onda reformista da década de 1960 que impedem a miséria e o desespero observados na Grande Depressão. O Partido Democrata está fortalecido pelas vitórias recentes e deixou de carregar o fardo de um sul conservador.
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Efectivamente, muito tem sido escrito sobre as semelhanças da crise actual com a Grande Depressão, muito tem sido dito e escrito sobre as semelhanças entre Barack Obama e Franklin Roosevelt (voltarei a este tema num próximo texto). A agenda do actual Presidente, eleito com uma áurea mística e promissora, na minha opinião demasiadamente alimentada pela sua equipa directa, não constitui tarefa fácil como se tem vindo a tornar cada vez mais evidente. Implementar a reforma no sistema de saúde, estimular o crescimento económico, resolver a crise financeira e encontrar soluções (já não digo vitórias) para as guerras no Afeganistão e no Iraque.
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Obama não tem conseguido avançar na sua agenda, ao contrário das elevadas expectativas para os seus primeiros 100 dias de governo e ao contrário das semelhanças, que há força se quiseram encontrar com a onda de empreendorismo do início do mandato de Roosevelt. A popularidade do novo presidente cai significativamente e em algumas sondagens está mesmo na faixa dos 40%.
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Obama não é Roosevelt, nem a crise actual pode ser resolvida da mesma forma como foi debelada a Grande Depressão de 1929. Ainda é cedo para afirmar o que acontecerá, mas o início não tem sido promissor.