sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

“Chasing the Flame”

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“Chasing the Flame” é o livro de Samantha Power sobre a vida e o trabalho de Sérgio Vieira de Mello; uma biografia exaustiva e trabalhada sobre a admirável trajectória do diplomata brasileiro, os cargos que ocupou, a sua envolvente politica, humana e familiar, os seus ideais, as suas preocupações e motivações, as relações humanas, sua mais valia, a sua capacidade negocial e a sedução como arma de combate.

Sérgio Vieira de Mello encarna alguns dos melhores valores que inspiraram a fundação da ONU: alguém que dedicou toda a sua vida a uma causa e a um ideal. Em todas as zonas de conflito em que actuou ao longo dos seus 34 anos de carreira na ONU - Bangladesh, Sudão, Moçambique, Líbano, Ruanda, Kosovo, Timor Leste e Iraque –, Vieira de Mello mostrou a mesma preocupação com a dignidade das vítimas da guerra, do desterro e da fome. Um homem corajoso e lutador que viveu também o dilema da incapacidade e das limitações da ONU e que nos revela a relativa impotência da organização diante das grandes catástrofes humanas da história recente.

Sem autonomia de combate, as forças de paz da ONU são muitas vezes chamadas para missões paliativas, nas quais se limitam a "monitorar" massacres em curso. As determinações do Conselho de Segurança revelam-se frequentemente vagas, porque os países-membros não se querem comprometer com linhas de acção claras. Um exemplo rico de informação sobre esta temática é a sua missão de 1982, ao lado das forças de paz no Líbano – a invasão do país por Israel em desacordo com as resoluções da ONU, constituiu uma dura decepção.

“Chasing the Flame” é um livro fascinante que nos ajuda a perceber melhor alguns dos mais relevantes conflitos internacionais, os bastidores da politica mundial, o jogo de poderes das Nações Unidos e, mais do que isso, a hipocrisia e o cinismo que regem as relações entre os países e entre os povos; ao fim e ao cabo a verdadeira natureza das relações humanas.


Vieira de Mello é também um produto do Maio de 68 (participou nos protestos estudantis e foi gravemente ferido), um rebelde idealista com uma sólida formação de esquerda e com uma matriz claramente francófona, o lado europeu da ONU por oposição ao lado anglosaxónico. Vieira de Mello era um pensador dos tempos modernos, um verdadeiro Indiana Jones da diplomacia, com uma sólida formação filosófica. Tinha um Mestrado e um Doutoramento em Filosofia pela Sorbonne (Doctorat d’état) com o título - “Civitas Maxima: Origins, Foundations, and Philosophical and Practical Significance of the Supranationality”. Nele apresenta-nos a sua própria versão de uma sociedade utópica igualitária e introduz uma teoria afirmativa do universalismo baseado no respeito mútuo entre países.

Samantha Power descreve-nos de forma meticulosa o diplomata e o homem, o filósofo e o operacional, o romântico e o solidário, o utópico e o pragmático, o idealista e o lutador.

Curiosamente, esta americana de origem irlandesa é uma das principais ideólogas da politica externa preconizada pelo actual presidente Obama. Doutorada em Havard, professora de relações internacionais na Kennedy School of Government, directora do Carr Centre for Human Rights Policy, já foi correspondente de guerra e vencedora do Pulitzer com o seu livro - "A Problem from Hell: America and the Age of Genocide" (fala-nos sobre a forma como a América lidou com o genocídio ao longo do século XX, incluindo os massacres do Ruanda, Bósnia e Darfur). Power simboliza a nova forma de abordar a diplomacia americana, representa um certo regresso a um tipo de diplomacia Clinton, que foi tão bem descrita por Hillary como “smart power”.

Enquanto concluía o livro sobre Sérgio, fechada em casa, só interrompia o trabalho quando duas pessoas lhe ligavam: a mãe e Obama ("It"s Obama. Call me"). Em 2004, ficou tão impressionada com ele, que decidiu suspender as suas actividades académicas para ir ajudá-lo no Congresso. Regressou para ajudá-lo na campanha até à infeliz entrevista a um jornal escocês em que se referiu a Hillary Clinton como a “monstra”. Foi expulsa da campanha presidencial, pediu desculpa e ausentou-se durante uns tempos. A opinião unânime era de que Obama não passaria sem a sua ajuda e assim aconteceu. Samantha Power voltou, sorrateiramente, para integrar a equipa de transição de Obama.

Hoje dia 30 de Janeiro, foi nomeada “Senior Director of Multi-lateral Affairs at the National Security Council” ou seja, terá um papel decisivo na formulação da política externa americana nas Nações Unidas, no G-8 e noutros fóruns globais.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

“Ivy Crises”

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A crise financeira que devasta fortunas, desfaz empresas, arruina instituições financeiras, arrasta milhões para o desemprego, leva gestores ao suicídio, famílias ao desespero chegou também às universidades mais prestigiadas do mundo.
:: A Ivy League representa a nata do ensino universitário americano e constitui uma referência de excelência académica, de selectividade, de elitismo e de sucesso. Neste grupo estão oito universidades privadas do nordeste americano, universidades coloniais, universidades ancestrais que constituem a matriz da cultura anglo-saxónica que forma os Estados Unidos da América. A Universidade de Brown, em Providence; a Universidade de Columbia, em Nova Iorque; a Universidade de Cornell, em Ithaca, Nova Iorque; o Dartmouth College, em Hanover, New Hampshire; a Universidade de Harvard, em Cambridge, Massachusetts; a Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia; a Universidade de Princeton, em Princeton, New Jersey e a Universidade de Yale, em New Haven, Connecticut.

O termo Ivy League aparece ligado ao desporto e torna-se oficial em 1954, com a criação da NCAA Division, período em que a atenção estava muito focalizada na competição desportiva entre universidades. Segundo o History Dictionary, o nome Ivy League deriva das heras verdes que revestem os prédios históricos dessas instituições, num claro sinal da sua ancestralidade. As universidades da Ivy League são também chamadas "Ancient Eight" ("as oito antigas") ou simplesmente Ivies.

Esta liga de ouro possui e gere legados (endowments) avaliados em biliões de dólares. Harvard está à cabeça e possui, ou melhor possuía o maior legado do mundo, avaliado em $37 biliões de dólares, no início de 2008.

É uma honra e um orgulho poder ostentar no curriculum o nome de Harvard. A possibilidade de aprender com os melhores dos melhores, a oportunidade de conhecer a vanguarda do conhecimento, lidar de perto com alguns dos melhores professores do mundo, trabalhar com alguns dos mais brilhantes estudantes constituem uma oportunidade única acessível a muito poucos.

(Franklin Roosevelt na fotografia)

Harvard, a mais antiga e a mais rica, foi pioneira na criação de um modelo de diversificação de investimentos mais tarde copiado por outras universidades. Enquanto muitos investiam em acções e obrigações, os executivos da Harvard Management C. aplicavam o legado bilionário em florestas, private equity, start-ups e capital de risco. Se, durante vários anos, os níveis de rentabilidade compensaram - 13,8% de rentabilidade anual, ou seja, duas ou três vezes mais do que o mercado de acções; a questão agora é a de saber se este modelo amorteceu ou potenciou os efeitos da crise dos mercados.

Segundo as últimas evidências e os cálculos da Moody's Investors Service (cerca de 30% de perda nos legados de colégios e universidades) isto significaria uma perda de $11 biliões de dólares para Harvard.

Estes dados não são confirmados pela universidade, mas os factos e as práticas apontam para perdas avultadas. O recente email da presidente para professores, alunos, alumni e staff refere explicitamente "unprecedented endowment losses" e revela que a escola procura outras formas de reduzir custos "We have to think not just about what more we might wish to do, but what we might do at a different pace or do without"

Curiosamente, e apesar da necessidade de reduzir custos, mais uma vez num momento de dificuldade regista-se a intenção expressa da universidade em intensificar os programas de ajuda que permitem que as famílias com rendimentos anuais inferiores a $60,000 dólares não paguem nada para enviar os seus filhos para Harvard, se o mérito o justificar.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

“Tears of Joy”

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É com enorme emoção e imensa saudade que acompanho as festividades da cerimónia de inauguração e a tomada de posse do novo presidente. Reconheço os lugares, identifico-me com os ideais, sinto as pessoas, vibro com as imagens. Washington está no meu coração e os Estados Unidos são indiscutivelmente a minha pátria de eleição.

Hoje mais do que nunca, sinto-me americano, partilho a esperança e a emoção que se fazem sentir, comungo da mesma matriz democrática e comovo-me com a mais pura das manifestações de democracia.

O frio gélido que se faz sentir não impediu que mais de dois milhões de pessoas invadissem a cidade para participar nesta magnífica cerimónia, repleta de simbolismo e de personalidade, que envergonha as democracias seculares do velho continente.

Esta é a verdadeira encarnação do espírito dos “Founding Fathers”, esta é a verdadeira encarnação do “american dream” e mostra-nos que no país mais desenvolvido do mundo existe igualdade de direitos e de oportunidades, mostra-nos que a maior democracia funciona e que o direito à liberdade e a recompensa pela mérito e pelo esforço do trabalho são uma realidade. Só assim foi possível, como disse Obama, a um filho de emigrante negro, que há sessenta anos atrás poderia não ser sequer servido num restaurante, ser hoje empossado no cargo de Presidente dos Estados Unidos da América.

Um discurso de transformação e não de transição, um discurso de força e de convicção e não de conforto, um discurso de ambição e não de acomodação. Este “Inaugural Adress” representa o inicio de uma nova era, a chegada ao poder de uma nova geração. Deixo-vos algumas das mais marcantes passagens deste discurso:

“The words have been spoken during rising tides of prosperity and the still waters of peace. Yet, every so often the oath is taken amidst gathering clouds and raging storms. At these moments, America has carried on not simply because of the skill or vision of those in high office, but because We the People have remained faithful to the ideals of our forbearers, and true to our founding documents.”

“Today I say to you that the challenges we face are real, they are serious and they are many. They will not be met easily or in a short span of time. But know this America: They will be met.”

“In reaffirming the greatness of our nation, we understand that greatness is never a given. It must be earned. Our journey has never been one of shortcuts or settling for less.”

“Now, there are some who question the scale of our ambitions, who suggest that our system cannot tolerate too many big plans. Their memories are short, for they have forgotten what this country has already done, what free men and women can achieve when imagination is joined to common purpose and necessity to courage.”

“Nor is the question before us whether the market is a force for good or ill. Its power to generate wealth and expand freedom is unmatched.”

“This is the meaning of our liberty and our creed, why men and women and children of every race and every faith can join in celebration across this magnificent mall. And why a man whose father less than 60 years ago might not have been served at a local restaurant can now stand before you to take a most sacred oath.”

“America, in the face of our common dangers, in this winter of our hardship, let us remember these timeless words; with hope and virtue, let us brave once more the icy currents, and endure what storms may come; let it be said by our children's children that when we were tested we refused to let this journey end, that we did not turn back nor did we falter; and with eyes fixed on the horizon and God's grace upon us, we carried forth that great gift of freedom and delivered it safely to future generations.”

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

De volta ao essencial

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Os portugueses têm por natureza, uma capacidade infindável para se perderem em assuntos laterais. Dedicam tempos sem fim a falar de minudências e pormenores, investem horas em reuniões de trabalho inconsequentes, apostam em noticiários e artigos de jornal vazios de contéudo, indignam-se com detalhes e extasiam com as vidas privadas dos conhecidos, gastam tempos incomensuráveis em transportes e apodrecem nos escritórios até às nove da noite, para impressionar o chefe.

A este propósito os temas dominantes dos últimos dias andam à volta das faltas dos deputados, irresponsáveis lúcidos; do julgamento da Casa Pia, continua cinco anos depois; das reuniões, negociações, greves, acordos, não acordos entre a nossa imparável Ministra da Educação e os "profissionais da sindicância".

Enquanto o país se preocupa com as falcatruas do BPN e companhia, o mundo continua na sua senda de crise e estagnação generalizadas. Os Estados Unidos, a um mês da tomada de posse do novo presidente, rejeitam, corajosamente, a ajuda financeira à indústria automóvel. Durão Barroso, no seu esforço constante para a reeleição, consegue in extremis a aprovação de um Plano de Ajuda conjunto que constitui a chave de ouro para um período de gastos incontroláveis e na minha opinião, e na maioria dos casos, inconsequentes.

Portugal prepara-se, agora legitimado por Barroso, para um bodo eleitoralista que irá fazer disparar, uma vez mais o nosso deficit. Alegres continuamos a pedalar para nos mantermos na mesma posição - a chamada "estratégia do urinol"

(Urinóis da Carcoran Gallery em Washington DC)

Transcrevo na íntegra uma notícia de hoje do Jornal de Negócios que nos deve preocupar e que infelizmente constitui a realidade que nos reduz à nossa insignificância e nos recorda a nossa incapacidade crónica.

“Os portugueses não sentiram melhorias significativas no seu nível de rendimento nos últimos 13 anos face aos parceiros comunitários, de acordo com os dados divulgados ontem pelo gabinete de estatísticas comunitário.

Portugal está na cauda da Zona Euro, perdeu poder de compra entre 2005 e 2007, já foi ultrapassado por Chipre, Eslovénia, Malta e República Checa - que só integraram a União Europeia em 2004. E a distância em relação ao poder de compra de outros novos Estados-membros como a Eslováquia, Polónia e Lituânia está cada vez mais curta.

Em 2007, o poder de compra dos portugueses encontrava-se 23,8% abaixo da média da União Europeia (UE), apenas 1,2 pontos percentuais acima da distância registada em 1995, altura em que se inicia a série de dados comparáveis disponibilizados pelo Eurostat. Isto não significa, necessariamente, que, em termos absolutos, o poder de compra não registou melhorias por cá. Apenas confere a certeza de que os restantes Estados-membros conseguiram no mesmo período uma melhoria mais significativa do que o nosso País, onde o rendimento por habitante, medido em paridade do poder de compra, foi de 18.955,8 euros em 2007, bem abaixo dos 27.162 euros da vizinha Espanha ou dos 66.307,7 euros do Luxemburgo”.

[French satirical cartoon map (’Carte drôlatique d’Europe pour 1870‘) sought to get some laughs out of those tensions by showing an anthropomorphic map of Europe, where each country was represented by a caricature of its national ‘persona’]

Estas são as questões essenciais, são estes os problemas que deviam abrir os telejornais e aparecer nas capas dos principais jornais, esta é a temática relevante que devia mobilizar opiniões e suscitar debates. Esta é a nossa realidade, nua e crua, não evoluímos, não melhoramos, não progredimos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Regresso a Portugal

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Deixei Washington DC no passado dia 1 de Dezembro num voo transatlântico com passagem por Paris. Fica assim para trás, na saudade da memória, um dos mais felizes e preenchidos períodos da minha vida. Fica assim para trás uma das mais interessantes e educativas cidades do mundo, um povo lutador, optimista e positivo. Irei guardar para sempre junto das minhas melhores recordações o muito que aprendi, as amizades que criei, os hábitos que desenvolvi e as imagens que observei.

Ficarei para sempre ligado a esta cidade. Tal como uma vez escreveu Marjorie Williams - “the truth is that many newcomers stay forever, secretly at home in the city everyone loves to hate”.

Deixo-vos algumas das últimas fotografias que consegui. Uma noite fria e vazia numa cidade rica e cativante.

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Estar longe de Portugal um mês, três meses, doze meses ou dezoito meses é um tanto ao quanto irrelevante. Recordo uma vez mais e sempre o nosso Eça, aquele que melhor soube compreender e transmitir a imagem do nosso país –“o velho e rotineiro Portugal”.

Nos Maias, a sua obra prima, Eça conta-nos como Carlos da Maia, ao regressar a Portugal depois de alguns anos no estrangeiro, tem esta conversa sublime com o seu amigo Ega.


“ - Pois tudo somado, menino – observou Ega – esta nossa vidinha de Lisboa, simples, pacata, corredia, é infinitamente preferível.

Estavam no Loreto; e Carlos parara, olhando, reentrando na intimidade daquele velho coração da capital. Nada mudara. A mesma sentinela sonolenta rondava em torno à estátua triste de Camões. Os mesmos reposteiros vermelhos, com brasões eclesiásticos, pendiam nas portas das suas igrejas. O Hotel Aliança conservava o mesmo ar mudo e deserto. Um lindo sol dourava o lajedo; batedores de chapéu à faia fustigavam as pilecas; três varinas, de canastra à cabeça, meneavam os quadris, fortes e ágeis na plena luz. A uma esquina, vadios em farrapos fumavam; e na esquina defronte, na Havanesa, fumavam também outros vadios, de sobrecasaca, politicando.
- Isto é horrível, quando se vem de fora! – exclamou Carlos.
- Não é a cidade, é a gente. Uma gente feiíssima, encardida, molenga, reles, amarelada, acabrunhada!...”

Como são tristemente actuais as palavras de Carlos da Maia, como é horrorosamente semelhante a imagem do país, a descrição das gentes, a imagem dos locais. Portugal não muda e quando o faz imita toscamente e refina em mesquinhez, pequenez, intriga e inveja.

O país está cinzento e chuvoso, sem sabor, sem opinião, acomodado e sobretudo desmotivado e sem esperança. Os temas dominantes continuam os mesmos, não se alteraram, os protagonistas mantêm-se mas o país este, está mais pobre. A crise económica é generalizada e vai piorar, a letargia politica e o unanimismo consolidaram-se; ricos e pobres estão agora cada vez mais maneatados num colete de forças que sufoca a democracia e castra a criatividade e o empreendorismo.
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sábado, 29 de novembro de 2008

Amy Biehl

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Na passada semana tive oportunidade de assistir à entrega anual do “J. William Fulbright Prize for International Understanding” que decorreu no State Department, aqui em Washington DC. Este ano este prestigiado galardão foi atribuído ao Arcebispo Sul Africano Desmond M. Tutu. A cerimónia contou com a presença de diversas personalidades da diplomacia internacional; diplomatas, embaixadores, representantes de diversos países e foi aberta pela “Secretary of State for Educational and Cultural Affairs” - Goli Ameri.

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O Fulbright Prize foi criado para homenagear o maior e mais prestigiante programa
de intercâmbio educacional na história bem como a carreira e o espírito do seu fundador, o falecido senador J. William Fulbright. Em 1993 a Fulbright Association criou o “J. William Fulbright Prize for International Understanding” para homenagear pessoas cujo contributo fosse relevante para juntar povos, culturas ou nações. O prémio de 50.000$ é oferecido pela Coca-Cola Foundation e agraciou desde então personalidades como; Nelson Mandela (1993), Jimmy Carter (1994), Mary Robinson (1999), Fernando Henrique Cardoso ( 2003) ou Colin Powel (2004).


James William Fulbright foi um democrata do sul, representou o estado do Arkansas entre 1945 e 1975. Multilateralista convicto foi um dos impulsionadores da criação das Nações Unidas. Sempre batalhou pela criação de um programa internacional de intercâmbio educacional que viria a tomar forma em 1946 - Fulbright Fellowships and Fulbright Scholarships, patrocinado pelo “Bureau of Educational and Cultural Affairs - Department of State”, por governos de vários países e pelo sector privado. William Fulbright pretendeu incrementar as relações culturais entre o povo Americano e os outros povos do mundo, através do intercâmbio de pessoas, conhecimento e experiências. É actualmente considerado um dos mais prestigiados programas do mundo e abrange mais de 144 países.

Desta vez a luxuosa sala “Ben Franklin” no último andar do “Department of State” encheu-se de convidados para homenagear Desmond Mpilo Tutu, um gigante de 1,5 metros de altura, carismático, bem humorado, tranquilo no seu conhecimento de experiência feito, sofrido mas acima de tudo corajoso e determinado.

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Foi um gosto ouvi-lo, aprender com as suas palavras, comovermo-nos com a sua humildade, impressionarmo-nos com o seu sentido de justiça e curvarmo-nos perante a sua capacidade para perdoar.

Desmond Tutu trouxe-nos a riqueza da sua “Rainbow Nation”, metáfora que ele utiliza para caracterizar a diversidade étnica da África do Sul pós- apartheid. Falou-nos do bem e dos bons, falou-nos da virtude do perdão e partilhou connosco a história de Amy Biehl.

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Em 25 de Agosto de 1993, quando transportava a casa três colegas negros da “University of the Western Cape” em Cape Town, foi atacada por um grupo de activistas negros que protestavam contra o regime e que proferiam palavras de ordem "One settler [white person], one bullet!". Apesar dos pedidos de clemência dos seus acompanhantes o grupo de insurrectos não hesitou e apedrejou-a até à morte.

Amy Biehl era uma estudante branca americana, da Universidade de Stanford na Califórnia, era ironicamente uma activista anti- apartheid que se encontrava na África do Sul no âmbito de um Programa Fulbright.
Os seus agressores foram presos e condenados mas em 1998, vários anos após a queda do apartheid, foram libertados. Desmond Tutu contou-nos que pertencia à “Truth and Reconciliation Commission” que apreciou o pedido de amnistia dos condenados.

De acordo com a lei Sul Africana a atribuição da amnistia está sujeita à apreciação por parte da família da vitima. Desta forma o pai de Amy Biehl quando questionado pronunciou-se do seguinte modo: “The most important vehicle of reconciliation is open and honest dialogue...we are here to reconcile a human life which was taken without an opportunity for dialogue. When we are finished with this process we must move forward with linked arms.” Graças à sua capacidade imensa para perdoar, estes homens foram libertados e actualmente trabalham para a Fundação Amy Biehl em Cape Town, cuja principal tarefa é a reabilitação de presos, a condução de programas de literacia e a formação profissional em bairros degradados.

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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

“Team of Rivals”

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“Team of Rivals” ou Equipa de Rivais é um livro extraordinário sobre a vida e a obra de Abraham Lincoln. Constitui mais um trabalho profundo e cativante de Doris Kearns Goodwin, vencedora de um Pulitzer Prize.

Goodwin escreveu já várias obras sobre presidentes americanos. Em todas elas revela-nos as qualidades políticas daqueles, a sua firmeza de carácter, a sua capacidade para influenciar, o seu espírito de missão e a sua carreira politica. Livros como: “Lyndon Johnson and the American Dream”, “The Fitzgeralds and the Kennedys: An American Saga”, “No Ordinary Time: Franklin and Eleanor Roosevelt: The Home Front in World War II”, constituem verdadeiros documentos históricos recheados de relatos ricos sobre a envolvente política da época, a sociedade e acima de tudo representam uma análise cativante sobre a personalidade destas figuras marcantes.

“Team of Rivals” é também um livro sobre politica, liderança, humildade, visão e inteligência. Abraham Lincoln foi um dos mais relevantes presidentes americanos e a sua capacidade de liderança influenciou de forma decisiva a evolução do curso da história deste país. Dotado de uma inteligência superior, portador de uma humildade imensa, lutou pela abolição da escravatura e foi o principal responsável pela união dos estados.

Doris Kearns Goodwin descreve-nos, na primeira parte do livro, todo o processo político-eleitoral que conduziu à nomeação de Lincoln na convenção do partido republicano, para candidato à presidência dos Estados Unidos. Ficamos a conhecer os candidatos rivais, as suas histórias pessoais, a sua carreira política, as suas prioridades e as suas ambições: William Henry Seward, líder do partido a partir de 1856, senador e governador de Nova York; Salmon P. Chase, experiente senador republicano; Edward Bates, juiz conceituado e finalmente Abraham Lincoln, de origem humilde, com uma carreira relativamente obscura e desconhecido até então. A imprensa ainda soletrava o seu nome erradamente “Abram”.

Lincoln era, contudo, menos radical do que Chase, mais firme no combate à escravatura do que Bates e tinha menos inimigos do que Seward. Também por estas razões foi o escolhido, com alguma surpresa dos rivais, para candidato presidencial e viria a ganhar de forma esmagadora contra o democrata Stephen Douglas, o “National Democrat” John Breckinridge e John Bell representando a União Constitucional, chegando assim a décimo sexto presidente dos Estados Unidos.

“Team of Rivals” descreve-nos o processo de escolha da sua equipa directa e a surpresa que constituiu a decisão de convidar os seus rivais para integrarem o seu governo. Lincoln escolheu Seward para “Secretary of State”, Chase para “Secretary of Treasure”, Bates para “Attourney General” e Simon Cameron, seu rival na Pensilvânia, para “Secretary of the War”. Este último viria a ser substituído pelo Democrata Edwin M. Stanton que o desprezava de forma veemente, mas que viria a tornar-se seu fiel amigo.

Com todos eles agiu com subtileza mas com segurança, com firmeza mas com sensibilidade, confiou na sua capacidade, soube reconhecer-lhes o valor e tirar o máximo partido das suas competências, da sua ambição pessoal e da sua influência, a bem do país.


Obama, sem pudor, costuma comparar-se a Lincoln. Ambos têm origens humildes e eram pouco conhecidos, ambos serviram o estado do Ilinois e ambos têm uma inteligência superior. Segundo Evan Thomas e Richard Wolffe da Newsweek, “Two thin men from rude beginnings, relatively new to Washington but wise to the world, bring the nation together to face a crisis. Both are superb rhetoricians, both geniuses at stagecraft and timing. Obama like Lincoln and unlike most modern politicians even writes his own speeches…”


Barack Obama evidencia pretender seguir o mesmo modelo nas escolhas para o seu governo. Escolheu Eric Holder para “Attourney General”, polémico jurista que sempre se opôs à politica de Bush dos campos de Guantánamo, criticou toda a sua politica de justiça e é o primeiro afro americano a ocupar este cargo.

Convidou a sua mais directa rival, Hillary Clinton, para “Secretary of State”, numa demonstração de coragem, de enorme inteligência política e de grande preocupação com o país. Hillary seria uma boa “Secretary of State”, é uma mulher inteligente e conhecedora, frequentadora dos areópagos de decisão internacionais e sensível à necessidade de apostar na diplomacia e na política de recuperação da imagem e de fomento das relações que esta administração vai iniciar.

Parece apostar na manutenção de Robert Gates, actual “Secretary of Defense”, em virtude do trabalho relevante que tem desenvolvido para reorganizar o Pentágono e mesmo na condução da guerra no Iraque.
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Fala-se na colaboração do republicano Collin Powell e do possível convite a Al Gore para a energia; seria a possibilidade de este implementar a politica verde que tanto apregoa. Reuniu-se já o com o seu adversário de eleição McCain e consta que definiu como pretende contar com a sua ajuda.

Até Liberman, que o criticou contundentemente e desertou para apoiar McCain, foi salvo in extremis por um telefonema de última hora, quando os seus colegas democratas se preparavam para o crucificar. Liberman vai continuar a chefiar o importante Comitê de “Homeland Security”.
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Obama tem revelado inteligência, visão e humildade. As suas intenções parecem positivas e a sua equipa caminha para se tornar única na história recente dos Estados Unidos.
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