segunda-feira, 27 de outubro de 2008

"SES" no Bolger Center

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Os últimos três dias foram passados no "William F. Bolger Center for Leadership Development", numa sessão de formação organizada pelo Center for Excellence in Public Leadership, da George Washington University. Esta iniciativa representou o terminus de uma formação para executivos que se preparam para ascender ao posto de SES (Senior Executive Service) do estado americano.

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O Bolger Center é o centro de formação da United States Postal Service, um antigo convento recuperado e fica situado nos arredores de Washington, numa vasta propriedade cheia de árvores magnificas, repleta de verde, envolta numa paisagem tranquila de outono.

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Durante cinco semanas contactei de perto com o funcionalismo público central (federal employees), apercebi-me das dificuldades, da forma como se resolvem os problemas, das preocupações, dos desafios que se avizinham e de como está distante da realidade portuguesa em muitos aspectos relevantes. Desde logo o modelo de avaliação, a estrutura da carreira, a aposta nas qualificações e no mérito para ascender ao lugar de SES e a preocupação de expurgar a influência politica dos níveis de decisão executivos da função pública.

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Estas preocupações remontam à reforma do funcionalismo publico de 1978 (Civil Service Reform Act of 1978) aprovada pelo Presidente Carter. Esta legislação representou uma renovação e uma tentativa de valorizar e dignificar o estatuto público, das poucas por ele realizadas. Preocupado em separar a politica da função, apenas 10% das nomeações passariam a ter carácter politico. Carter pretendeu promover a nomeação com base no mérito, incluir na letra da lei as relações laborais do funcionalismo público, até ali sujeitas ao livre arbítrio do Presidente que estivesse em funções e promover o incentivo para a criação de oportunidades de trabalho para as minorias (veteranos de guerra, mulheres e deficientes).

Esta reforma teve como foco central a criação dos SES (Senior Executive Service), um corpo de funcionários escolhidos pela sua competência e qualificações. Os SES ocupam as posições de topo, imediatamente abaixo dos nomeados políticos pelo Presidente e constituem o principal elo de ligação entre estes e toda a restante massa de funcionários federais. Constituem um grupo de elite, existem apenas sete mil em 14,6 milhões de funcionários, operam em praticamente todas as agências governamentais e possuem um estatuto diferente dos restantes funcionários do estado.

São avaliados com base no alcance de objectivos de performance pessoais, tendo em conta a concretização das metas da agência correspondente e os níveis de satisfação dos clientes. Possuem intervalos salariais mais alargados uma vez que passam a usufruir de prémios de mérito que podem ascender a 30 ou 40 mil dólares atribuídos directamente pelo Presidente, os chamados “Presidential Rank Awards”.

Curiosamente nenhum dos candidatos presidenciais abordou, de forma clara, a questão do serviço público. Dos dois, Obama foi o que teve maior coragem e referiu de passagem, no início da campanha, a sua vontade de estreitar os níveis da função pública, facto que afectaria de forma directa os SES’s. Não creio que tal se venha a verificar, embora possa muito bem significar uma primeira tentativa de redistribuir a riqueza apregoada por Obama!!

terça-feira, 21 de outubro de 2008

As Cores do Outono

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Ninguém melhor do que Torga para retratar o Outono. O poeta das serras transmontanas, aquele que vê o que os outros não alcançam, o poeta do mundo rural, das forças telúricas, ancestrais, o apanhador de café, o vaqueiro, o caçador de cobras. Torga conhece a natureza como ninguém, fala com os “Bichos” veste-lhes a pele, estende a mão e toca o céu, numa simbiose de paixão e poesia, imaginação e genialidade.

"OUTONO"

Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.


"FOLHINHA"

Murchou a flor aberta ao sol do tempo.
Assim tinha que ser, neste renovo
Quotidiano.
Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume.
O gume
Do cansaço
Vai ceifando,
E o braço
Doutro sonho
Semeando.
É essa a eternidade:
A permanente rendição da vida.
Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume,
E o lume
De não sei que ilusão a arder no cume
De não sei que expressão nunca atingida.


Os Deuses pintaram a cidade de amarelo torrado, amarelo escuro, amarelo claro, castanho, bege, vermelho escuro. O Outono chegou com a sua paleta de cores pastel, trouxe os dias mais pequenos, o sol fugidio e prepara-nos para o Inverno.
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As folhas começam a cair e cobrem o chão dos parques e das ruas em tapetes coloridos. Os carvalhos que aqui abundam pintam-se de vermelho, a clorofila desaparece e os pigmentos vermelhos ocupam o seu lugar. O céu perdeu aquele azul alaranjado e vestiu-se de cinzento trazendo a neblina baça da manhã.

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A vida continua nesta cidade que não para. Aqui todos começam cedo, pelas seis da manhã já as ruas se agigantam, as estradas fervilham de “commuters”, o metro abre as suas portas a secretárias, executivos, funcionários públicos, canalizadores e operários. Todos se precipitam civilizadamente para mais um dia de oito horas. Muitos percorrem dezenas de quilómetros pela noite escura, viajam horas em “car pool” na ânsia de terminar um dia que ainda não começou para poderem regressar às suas casas nos arredores, onde encontram a qualidade de vida, o sossego, a privacidade que não têm na cidade. Washington é uma metrópole de passagem, vive durante o dia e mirra durante a noite. Multiplicam-se os escritórios vazios e os imponentes departamentos de estado, os museus e os monumentos fantasma.

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A vida está nos aglomerados dispersos dos arredores, como é o caso de Alexandria que visitei este fim de semana. Alexandria pertence ao Estado de Virginia e fica situada a sul de Washington DC nas margens do rio Potomac. Foi constituída em 1749 e deve o seu nome a Scotsman John Alexander que a adquiriu a um capitão de navio Inglês em troca de tabaco.

O centro histórico da cidade encontra-se preservado e transmite uma atmosfera dos primórdios da nação. A Captain’s Row, por exemplo, preserva intacta o macadame que separa as casas históricas, muitas delas pertença de capitães de navios do século XVIII.

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A rua principal, King Street, estende-se desde o monumento maçonico que homenageia George Washington, até ao porto e fervilha de comércio e cultura, museus, teatros e um sem número de galerias.

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A antiga Torpedo Factory é hoje um magnifico centro de arte numa manifestação de promoção de artistas, de divulgação da cultura e de gosto pelas artes.
Esta fabrica começou a ser construída a 12 de Novembro de 1918, ironicamente o Dia do Armistício. Viria a tornar-se na U.S. Naval Torpedo Station e nela foram construídos os torpedos Mark XIV, para submarinos e o torpedo de aeronave Mark III que muito participaram na II Guerra Mundial.

Em 1969, a Cidade de Alexandria comprou o complexo de edifícios ao Governo Federal e só em 1974 o trabalho começou, graças ao projecto para criar um espaço para artistas, proposto por Marian Van Landingham que era Presidente da Art League. Hoje o Centro de Arte alberga mais de 160 profissionais que trabalham, expõem e vendem as suas obras. Em conjunto com mais de 1000 membros e 2000 estudantes a Torpedo Factory Art Center reune artistas de todo o mundo.

Impressionou-me a abundância de pintores e a proximidade da criação, os ateliers estão abertos e qualquer um pode assistir ao nascimento de uma obra. Público e artistas, leigos e especialistas num convívio pelo amor à arte.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Os Esquilos da Democracia

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Washington, nesta altura do ano, está repleta de esquilos, castanhos escuros, castanhos mais claros, cinzentos e pretos, os mais raros. É frequente depararmo-nos com esquilos nas ruas, a brincar nos relvados abundantes, sentados nos bancos dos jardins e em todos os parques da cidade. Recolhem comida para fazer face ao Inverno que se avizinha e armazenam bolotas e outros frutos secos para poderem sobreviver à carestia do frio.

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A entrada dos esquilos na cidade remonta ao final do século XIX, quando foram largados 18 esquilos pretos provenientes do Canadá no Jardim Zoológico da cidade. Edward Schmid, prestigiado comerciante, fundador de uma loja de animais e amigo do presidente Theodore Roosevelt, cujos filhos brincavam com esquilos oferecidos à Casa Branca, foi um dos principais responsáveis por este povoamento.


Em 1906 um relatório do Congresso refere que a experiência de largar esquilos nos jardins do Capitólio, nos relvados da Smithsonian Institution e nos espaços verdes do Departamento de Agricultura, veio demonstrar o interesse do público por experiências desta natureza. Nos anos seguintes, um número considerável de esquilos povoou a Lafayette Square e os jardins da Casa Branca.

Actualmente existem milhares de esquilos, fazem parte da rotina da cidade num convívio amigável entre racionais e irracionais. Parecem também ser os únicos que estão imunes à crise económica que todos os dias arrasta famílias e empresas para a falência.

A volatilidade continua a perturbar os mercados e o espírito de confiança e a serenidade ainda não regressaram. Estou convencido de que as empresas, os particulares, mas sobretudo os eleitores já perceberam que esta situação se vai manter até às eleições e estão convencidos que só uma vitória de Obama poderá trazer algum alento e esperança aos mercados e energia à economia.

Curiosamente, Obama e McCain encontraram-se hoje de novo para cumprir uma tradição social e estiveram presentes no “Annual Al Smith Dinner”, em Nova York. Nos últimos 60 anos, convidados distintos participaram neste evento para angariar fundos e honrar Al Smith, o falecido governador de Nova York e primeiro católico a concorrer à presidência, em 1928.

Os candidatos presidenciais participaram pela primeira vez em 1960, com John F. Kennedy e Richard Nixon em palco duas semanas antes das eleições.

Quer Obama, quer McCain estiveram bem num ambiente leve mas elegante, descontraído mas selecto com discursos divertidos e alegres, numa demonstração de democracia, de civismo e de elevação intelectual invejável.

A democracia americana está plena de vitalidade, robusta de energia, imensa de liberdade. Estes valores estão mais solidificados e enraizados neste país tão jovem do que em muitos países europeus com democracias seculares, onde cada vez mais se vive e sente um ambiente de medo e o fantasma permanente da falta de liberdade de expressão e da ausência de livre opinião.

Recordo, a este respeito, uma passagem do Eça sobre a cidade ou, em extensão, sobre Portugal: em que este refere que "todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação; as ideias têm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma (...), e até o que há de mais pessoal e íntimo, a ilusão, é em todos idêntica, e todos a respiram, e todos se perdem nela como no mesmo nevoeiro... A MESMICE - eis o horror" de Portugal.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

“Joe the Plummer”

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Terminou há momentos o último dos debates presidenciais, na minha opinião, com um empate entre os candidatos.
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Este foi claramente o melhor dos três debates; mais emotivo, mais vivo, com maior interacção entre os candidatos, mais empolgante e mais clarificador relativamente às propostas em discussão.

Ficamos desta vez a conhecer “Joe the Plummer”, canalizador do Ohio, da classe média e com o objectivo de se tornar num empresário por conta própria adquirindo o negócio ao seu actual patrão. John McCain repetiu à saciedade este exemplo para retratar como seria nefasta e prejudicial para a classe média empreendedora, a politica fiscal proposta por Obama. Do “Joe Six Pack” de Sara Palin chegamos ao “Joe the Plummer” de McCain, uma aposta nos exemplos e nas personagens a apelar ao americano mediano, da batata frita e do hamburguer.

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Mccain esteve melhor na primeira meia-hora, foi mais combativo, mais assertivo, mais vivo e eloquente. Obama esteve mais professoral, manteve o seu tom monocórdico e faltou-lhe alguma vivacidade e convicção nas respostas aos ataques de McCain.

Mas McCain precisava de uma vitória clara e esmagadora sobre o seu opositor o que não aconteceu, esteve permanentemente na ofensiva e no ataque mas foi por vezes excessivo e não conseguiu, mais uma vez, esconder ou sequer disfarçar a sua animosidade para com Obama.

Finalmente as questões tabu foram colocadas por McCain; a relação com William Ayer, a campanha negativa, os gastos na campanha, o alegado envolvimento com a empresa de recenseamentos. Foi o momento mais emotivo e esperado mas, mais uma vez, Obama esteve bem e anulou a notória irritação de McCain com as suas respostas seguras e concludentes.

Falou-se muito de economia e de energia e McCain esteve bem, falou-se muito de saúde, educação e de aborto e Obama esteve melhor. Esta foi a última oportunidade perdida para John McCain, as próximas três semanas constituirão uma progressiva caminhada para a vitória daquele que será o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos.

sábado, 11 de outubro de 2008

“Regulatory Capitalism”

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Realizou-se ontem aqui em Washington DC a cimeira do G7. Estados Unidos, França, Alemanha, Japão, Inglaterra, Canada e Itália acordaram num plano coordenado para salvar o sistema financeiro mundial, mas escusaram-se a revelar pormenores do referido plano. As medidas vão desde o empréstimo de fundos às instituições financeiras para ultrapassar a falta de liquidez de curto prazo, até à injecção de dinheiro nos bancos americanos, em contrapartida de uma participação no seu capital.
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Delegações, comitivas, especialistas, observadores, assessores e jornalistas de todo o mundo aguardaram ansiosamente pelo fumo branco da decisão que chegou, infelizmente, encoberto pelo manto difuso da imprecisão, rodeado de dúvidas, de incertezas e de uma ausência notória de trajectória para lidar com a situação actual.

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O mundo esperava muito mais deste encontro, as economias mundiais esperavam muito mais desta cimeira, o sistema financeiro mundial precisava e precisa de confiança, de estabilidade e de rumo. Os países industrializados tiveram aqui uma oportunidade, importante, para estabelecerem as regras de um novo sistema financeiro, da mesma forma que em Julho de 1944, em Bretton Woods, New Hampshire, as 44 nações aliadas estabeleceram aquelas que viriam a ser as regras para as relações comerciais e financeiras entre os países mais industrializados do mundo.

O sistema Bretton Woods foi o primeiro exemplo, na história mundial, de uma ordem monetária totalmente negociada, tendo como objectivo governar as relações monetárias entre Nações-Estado independentes e vigorou durante, aproximadamente, 30 anos.

O período que estamos a viver representa, sem dúvida, o início de uma nova era na história do mundo. Traduz o reequacionamento do equilíbrio financeiro mundial, a alteração das premissas de suporte ao modelo de capitalismo liberal e acima de tudo poderá representar uma mudança decisiva no papel dos Estados Unidos.


Num artigo brilhante na Newsweek, o professor Fukuyama refere que o descalabro dos mercados e de Wall Street representa o fim da era Reagan e da sua politica liberal. "Reaganomics" assentava numa determinada visão do capitalismo, baseado nas baixas taxas de imposto e na reduzida regulação dos mercados – “deixar os mercados funcionar”. Esta ideia de desregulamentação alastrou-se um pouco por todo o mundo e na Europa a Sra. Tatcher foi a sua principal impulsionadora.
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Estas politicas revolucionárias constituíram a base de uma nova era de crescimento e de desenvolvimento, sem precedentes, em sectores como a biotecnologia e os sistemas de informação. Além disto, através de instituições como o FMI e o Banco Mundial, nados de Bretton Woods, muitos países do terceiro mundo foram forçados a abrir as suas economias. Apesar de criticado por muitos demagogos e populistas como Chávez da Venezuela, o chamado “Washington Consensus” contribuiu para atenuar a dor de muitos países da América Latina assolados pela divida galopante e pela hiper-inflação, como aconteceu no Brasil e na Argentina nos anos oitenta.


Foram também estas politicas de mercado que tornaram a China e a Índia nas potências que são hoje.

São muitos aqueles que pelo mundo fora se regozijam com este tropeção do capitalismo liberal, são muitos aqueles que pelo mundo fora esfregam as mãos de contentamento pelo desmoronamento do capitalismo americano, são muitos aqueles que pelo mundo fora desfraldam a bandeira do socialismo e tiram da penumbra os ideais socialistas há muito ultrapassados. Mas estes são comportamentos normais para ideólogos de biblioteca, para políticos de carreira, para demagogos de partido, são comportamentos normais para ditadores terceiro mundistas e lunáticos populistas.

Infelizmente estes não são comportamentos normais para responsáveis governamentais de países do primeiro mundo, estes não são comportamentos normais para defensores da democracia nem para lutadores pela melhoria das condições de vida dos povos, estes não são comportamentos normais para um primeiro ministro quando fala aos cidadãos na assembleia do seu país.


O capitalismo liberal passará a ser, certamente, mais regulamentado, mais controlado, mais acompanhado pelos governos. Este é aliás o grande desafio da nova era para as entidades reguladoras dos mercados. De qualquer forma, desiludam-se aqueles que vêem nestas mudanças uma forma de socialismo moderno, ou aqueles que as identificam com uma forma de corporativismo, ou aqueles que sonham com um modelo de capitalismo autoritário à Putin, ou ainda aqueles que deliram com o estado social, a estatização e o intervencionismo estatal à Sócrates.

O modelo capitalista provou já os efeitos positivos que trouxe às economias e como foi potenciador de crescimento, de desenvolvimento e de melhoria das condições de vida dos povos. Estou firmemente convencido de que os países democráticos continuarão a apostar nos mercados livres e no livre comércio para crescerem e melhorarem o nível de vida das suas populações.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O Dilema do Eleitor Americano

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(Deixo aqui o meu artigo publicado hoje no Diário Económico)
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O sistema politico dos Estados Unidos pregou uma partida a uma grande maioria dos tradicionais eleitores americanos, inclusivamente, aos mais liberais.

Neste momento, é um dado aquirido que o próximo presidente da nação mais poderosa e influente do mundo poderá ser um negro ou a próxima vice-presidente poderá ser uma mulher. Os americanos foram, portanto, conduzidos de forma deliberada, ou não, para uma situação em que têm, necessariamente, de decidir entre duas minorias, até aqui bastante mal tratadas.

Ainda há cerca de 30 anos, em muitos estados americanos o racismo assumia proporções assassinas, com as perseguições do Ku Klux Klan. Em 1948, Margaret Chase Smith era a primeira mulher republicana a ser eleita para o Senado, e actualmente temos apenas dezasseis senadoras em cem. Hoje, podemos ter uma mulher na vice-presidência ou um negro na presidência e isto representa, sem dúvida, uma evolução democrática relevante. Receio, infelizmente, que possa representar, também, uma deriva populista e eleitoralista destinada a perpetuar o poder dos republicanos ou a recuperá-lo pelos democratas.

Barack Obama representa, indiscutivelmente, um fenómeno de popularidade, um hipnotizador de multidões, quase um prestigitador de sermões solenes, empenhado na pesca de homens. Enquanto tal, torna o impossível possível nos seus discursos, que, à partida, impressionam frequentemente o ouvinte, mas que, após uma análise mais aturada, revelam alguma plasticidade, por vezes inconsistência e até inconsequência.
A sua formação liberal da escola de Chicago, a sua passagem por Harvard, ajudam, de forma significativa, à sua roupagem de compentência, à sua imagem de rigor e de eficiência, e em conjunto com a sua reconhecida capacidade de decisão tornam-no quase imbatível. Na realidade Abner Mikva, antigo juiz federal e seu mentor, refere que “He doesn't come to you for advice - what should I do? He comes to you with an idea and asks you to critique it”.

No lado republicano, Sara Palin, uma mulher bonita, determinada, dona de casa e mãe de familia, sem experiência relevante, sem curriculum consistente ou conhecido, presidente de câmara, politica local, arredada dos areópagos de decisão de Washington, das elites intelectuais republicanas, profudamente desconhecida e desconhecedora da política internacional, representa uma surpresa, nesta fase, mais negativa do que positiva. Para todos os efeitos, ela poderá ser a presidente dos Estados Unidos, uma vez que McCain, se for eleito, será o mais velho presidente. Estou convencido que a sua escolha vai ser determinante para a decisão final.

O seu primeiro discurso, no congresso republicano, foi eficaz, bem construido, determinado, cativante e conseguiu empolgar os congressistas, mas foi vazio de contéudo, não aflorou os temas relevantes para os americanos e para o mundo; quais as politicas de saúde e de educação, qual a posição em termos de relações internacionais, qual a politica de segurança e em que medida ela difere da seguida até aqui por George w. Bush.
Infelizmente, temos a sensação de que a qualidade, a preparação, o conhecimento, a experiência e a competência foram secundados pelo eleitoralismo e pelo populismo. A necessidade de captar votos é de tal forma arrebatadora, que se sobrepõe a tudo o resto.

A avaliar pelo espírito que se sente e vive aqui em Washington, ao deambular pelas ruas, ao falar com as pessoas, ao ler os jornais, nas lojas, no metro, a vitória democrata está garantida. E, possivelmente, seria a melhor solução para a Europa e para o mundo e até talvez para a America. Pena é que, apesar de ser a capital, Washington não tenha voto na matéria.

No final, o dilema dos eleitores americanos será a escolha entre um negro suportado por um “pittbull” ou um republicano, da ala mais conservadora, suportado por uma “hockey mum”. É tudo uma questão de cor e de “lipstick”.
Washington DC, 5 de Setembro de 2008

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Ms. Fuld and “The New York School”

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Na passada semana a mais conceituada casa de leilões do mundo, a "Christies International", anunciou para o próximo dia 12 de Novembro a venda de um conjunto de magníficos trabalhos de pintores americanos da famosa “New York School”.

Esta colecção avaliada em 20 milhões de dólares pertence, supostamente, à reconhecida coleccionadora Kathy Fuld, vice-chairman do Conselho de Curadores do New York Museum of Modern Art (MOMA). Ms. Fuld é também casada com Richard Fuld, presidente e principal accionista da Lehman Brothers. Curiosamente este anúncio é feito quatro dias após a notícia da falência da instituição.

A família Fuld perdeu grande parte da sua riqueza com o colapso do banco. Richard Fuld vendeu por 500 mil dólares um conjunto de acções que há um ano atrás valiam 247 milhões.

O leilão da Christies inclui três Koonings, cinco Barnett Newmans, quatro Arshile Gorkys e quatro Agnes Martin. Uma aposta nos Expressionistas Americanos demonstrando qualidade, beleza e bom gosto. Aliás, o bom gosto não tem fronteiras e as circunstâncias da vida obrigam, por vezes, a termos de nos desfazer de bens queridos.
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Gorky: "Water of the flowery Mill"

Este movimento artístico nascido na América dos anos 40, com grande focus na cidade de Nova Iorque, constituiu um marco relevante no mundo da arte e representou uma viragem de atenção da Europa e dos surrealistas europeus para os Estados Unidos e para os expressionistas abstractos. Este foi aliás o primeiro movimento que seguiu o caminho inverso do tradicional: em vez de seguir da Europa para a América, foi da América para a Europa.

Kooning: "Woman"

Esta é uma escola de artistas eclécticos, inovadores, espontâneos e marcados por uma fase determinante da vida americana, a fase pós- depressão. A grande maioria deles vem da Europa do norte e dos Urais e por uma razão ou por outra vem desaguar a Nova Iorque. Jackson Pollock, a referência, Willem de Kooning, Franz Kline, Lee Krasner, Robert Motherwell, William Baziotes, Mark Rothko, Barnett Newman, Arshile Gorky e Agnes Martin, estes dois últimos menos alinhados.

Newman: "Sem Título"

A Grande Depressão estimulou o desenvolvimento de programas de ajuda, em particular o Programa “Works Progress Administration (WPA)” para os milhares de desempregados e no qual muitos dos elementos do grupo participaram e que permitiu a tantos a construção de uma carreira.

Agnes Martin: "Sem Título"

Este movimento contribuiu para o surgimento de uma arte verdadeiramente norte-americana com forte domínio do subconsciente, onde a liberdade e a espontaneidade são uma realidade e corporizam a revolta contra a pintura tradicional.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

“Palinisses”


Terminou há pouco o tão esperado debate para a Vice Presidência dos Estados Unidos. Palin vs. Biden era um debate decisivo para inverter a tendência decrescente das sondagens das últimas semanas.
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Sara Palin conseguiu relançar a campanha, esteve bem para quem partia de uma posição tão desvantajosa, com uma imagem profundamente desgastada, uma comunicação social terrivelmente crítica e irónica, a demolidora entrevista a Katie Couric da CBS, a confrangedora entrevista com McCain, a semana negra dos mercados e o seu efeito sobre os republicanos e o descolar de Obama. A entrevista de hoje vem trazer uma certa frescura a uma campanha bafienta e Palin consegue impressionar o americano médio e reposicionar a sua imagem.

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De qualquer forma, na sua essência, Palin representa um vazio total, uma completa ausência de ideias próprias, um profundo desconhecimento dos assuntos para além do essencial, uma mediania devastadora e, acima de tudo, uma falta de preparação total para ocupar um cargo com o grau de responsabilidade do de Vice Presidente. Apesar da sua fluência articulada, da entrevista bem preparada, da empatia que proporciona, é de certa forma confrangedor reparar que ela não responde às questões, que se refugia na energia e na sua experiência na Câmara de Wasila, que recorre ao cliché da mãe de família que vai ao jogo de baseball, e tudo isto acompanhado de um piscar de olho tão fora de contexto.

Quanto a Joe Biden, esteve brilhante. Segundo David Gergen, da CNN, este foi o melhor debate da vida de Biden. Foi excelente na política externa, foi excelente nas responsabilidades do Vice Presidente, foi cativante nas responsabilidades de pai e foi acutilante e certeiro nos ataques, constantes, a McCain. Mostrou que domina os assuntos que possuì um “track record” impressionante enquanto Senador e sobretudo mostrou que tem competência para substituir o Presidente em qualquer ocasião.

Apesar da onda de frescura alcançada, do relançamento da imagem e da jovialidade, julgo que o resultado final sobre a campanha não será relevante e que a inversão das sondagens é quase impossível.