sábado, 13 de setembro de 2008

Remédio de Alma

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No Egipto, as bibliotecas eram chamadas de ''tesouro dos remédios da alma''. A própria biblioteca de Alexandria, a maior e mais vasta da Antiguidade, ostentava por cima da porta de entrada a frase “Remédio de Alma”.
Segundo Jacques-Bénigne Bossuet, bispo e teólogo francês do século XVII, “era nas bibliotecas que se curava a ignorância, a mais perigosa das enfermidades e a origem de todas as outras."

Jorge Luís Borges costumava referir, naquele seu tom provocatório, que “há aqueles que não podem imaginar um mundo sem pássaros; há aqueles que não podem imaginar um mundo sem água; ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros."

Partilho a opinião de ambos e por isso mesmo fui visitar hoje a maior biblioteca do mundo – a Library of Congress.

No edifício Thomas Jefferson está alojada a maior colecção de livros, mapas, gravações, fotografias, filmes e imagens, do Mundo Moderno. Uma arquitectura da Renascença italiana com pormenores curiosos e originais, introduzidos pelos americanos, como é o caso da representação de Apólos gregos a jogar basebol. Este monumento de cultura impressiona pela sua beleza, graciosidade e tributo ao conhecimento e ao saber.
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A sala principal é de uma imponência arrebatadora, a cúpula é banhada pela luz e ornamentada por figuras alegóricas femininas representando a Religião, o Comércio, a História, a Arte, a Filosofia, a Poesia, o Direito e as Ciências. Mais impressionante ainda, são as dezasseis estátuas em bronze que ornamentam as balaustradas das galerias superiores e onde estão representados homens que marcaram o pensamento. Os leitores são assim observados por Moisés e São Paulo (Religião), Cristóvão Colombo e Robert Fulton (Comércio), Hérodoto e Edward Gibbon (História), Miguel Ângelo e Beethoven (Arte), Platão e Francis Bacon (Filosofia), Homéro e Shakespeare (Poesia), Solon e James Kent (Direito), Isaac Newton e Joseph Henry (Ciência). Apesar de parecerem intimidar, transmitem, ao invés, uma paz celestial que convida o mais analfabeto dos homens a viver uma experiência quase sobrenatural de saber.

A Library of Congress fica a dois passos do Capitólio, o símbolo por excelência da democracia e aquele que constituía o quarto alvo para os terroristas do 11 de Setembro.

Este monumento é simplesmente superior, para além de símbolo da democracia, representa a liberdade através da estátua que se encontra no seu topo. Uma figura feminina envolta em mantos e com o seu “liberty cap”, símbolo da libertação dos escravos. Passeei-me pelos jardins circundantes em direcção à Pennsylvania Avenue, e deixei para outro dia a visita ao seu interior.

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Washington é também a cidade da imprensa, a abundância de jornais, revistas, folhetos e pasquins é imensa. Impressiona-me, acima de tudo, a facilidade com que temos acesso a eles, nas ruas, nas lojas, nos cafés. Descobri que posso obter, todos os dias, o célebre Washington Post, de graça, no Starbucks. A disseminação no povo do hábito de ler cria, fatalmente, uma população urbana mais esclarecida, mais capaz de vontade própria, menos indiferente à vida nacional. Exemplo vivo disto é o Newseum, montra interactiva da imprensa de todo o mundo, nos seus expositores podemos encontrar todos os dias as primeiras páginas de todos os jornais americanos e algumas dos principais jornais do mundo.

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Washington, como verdadeira capital multi-cultural, tem também uma Chinatwon, neste caso de reduzida dimensão, povoada de restaurantes orientais, negócios de bijutaria e minúsculas lojas com produtos asiáticos. Curiosamente, as grandes cadeias ocidentais, em sinal de respeito, ostentam os nomes das suas marcas nas duas línguas.

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O conhecido “Arco da Amizade”, referência desta comunidade ergue-se por cima da "H Street na 7th Street".

Apanhei um dia de festa na rua, tendas montadas, centenas de pessoas, espectáculos e actuações por todo o lado. Curiosamente, dei de caras com uma actuação de capoeira, organizada pela embaixada do Brasil. É nestas ocasiões que tenho de reconhecer o quanto devemos ao Brasil enquanto embaixador e divulgador da língua portuguesa no mundo. Eles tornam-nos um pouco menos irrelevantes.

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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

My Country, 'Tis of Thee'

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Curvo-me perante o povo americano, hoje passados que estão sete anos sobre o 11 de Setembro de 2001. Inicio aliás esta reflexão com a transcrição da canção patriótica “My Country, 'Tis of Thee”, também conhecida como "America", escrita por Samuel Francis Smith e similar à Britânica God Save the King. Foi eternizada por Martin Luther King Jr. durante o seu célebre discurso “I Have a Dream”. Recordo-me, também, de a cantar com a minha mãe, que era americana, quando ainda era criança e de perceber hoje como foi marcante para a minha vivência:

My country,' tis of thee,
sweet land of liberty, of thee I sing;
land where my fathers died,
land of the pilgrims' pride,
from every mountainside let freedom ring!

My native country, thee,
land of the noble free, thy name I love;
I love thy rocks and rills,
thy woods and templed hills;
my heart with rapture thrills, like that above.

Let music swell the breeze,
and ring from all the trees sweet freedom's song;
let mortal tongues awake;
let all that breathe partake;
let rocks their silence break, the sound prolong.

Our fathers' God, to thee,
author of liberty, to thee we sing;
long may our land be bright
with freedom's holy light;
protect us by thy might, great God, our King.

Tive oportunidade de viver hoje uma experiência inesquecível e única, profundamente reveladora da natureza deste povo, da sua força, da sua firmeza e um traço vivo da sua personalidade. Fui visitar um complexo industrial nos arredores de Washington, onde trabalham cerca de duzentas pessoas, de todas as idades, sexos, étnias e raças, com predominância de estrangeiros e sobretudo de minorias. A meio da manhã fomos surpreendidos pela voz grossa e penetrante da supervisora de serviço que ecoou pela unidade industrial, uma afro-americana de estatura larga e cara redonda: “Hoje dia 11 de Setembro vamos fazer um minuto de silêncio, como temos feito nos últimos sete anos, em memória daqueles que morreram nas torres gémeas”.

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Senti uma profunda emoção, olhei em redor e descortinei; negros, brancos, orientais, latino-americanos, europeus, numa união de respeito por aqueles que morreram, de solidariedade para com aqueles que ficaram e de imensa admiração pela capacidade infindável deste povo em continuar a lutar em prol da liberdade e da democracia em todo o mundo.

Neste dia especial, não podia deixar de citar Oriana Fallaci e o seu livro “A Raiva e o Orgulho” que me marcou e marca profudamente:

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«“Força gente, força! Arregacemos as mangas!” (referia Giuliani) E podia fazê-lo porque aquela gente era, é como ele. Gente sem vaidade e sem preguiça, o meu pai teria dito, e com tomates. Quanto à admirável capacidade de se unirem, a capacidade quase marcial com que os americanos respondem às calamidades e ao inimigo, devo admitir que até eu fiquei surpreendida. Sabia que essa capacidade se manifestou aquando de Pearl Harbour, isto é, quando o povo cerrou fileiras à volta de Roosevelt, e Roosevelt tinha entrado na guerra contra a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini e o Japão de Hirohito. Também a tinha visto depois do assassinato de Kennedy (...). Assim quando vi brancos e negros chorarem abraçados, quando vi democratas e republicanos cantarem abraçados God save America, fiquei petrificada».

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“A verdade é que a America é um país especial, meu caro. Um país a invejar, de que ter ciúmes por coisas que nada têm a ver com a riqueza. E é-o porque nasceu de uma necessidade da alma, a necessidade de ter uma pátria, e da ideia mais sublime que o homem jamais concebeu: a ideia de liberdade unida à ideia de igualdade. E é-o ainda porque, naquele tempo a ideia de liberdade não estava na moda. E menos ainda a ideia de igualdade.”

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Cartoons e World Press

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Depois de um dia de trabalho duro, mas recompensante, decidi ir jantar a Georgetown. O movimento intenso, as pessoas, as lojas, a agitação frenética das ruas tornam este bairro um dos locais mais simpáticos e divertidos de Washington. A proximidade da Georgetown University e do campus da George Washington University contribuem para um ambiente estudantil, jovem e descontraido.

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Jantei no “Le Pain Quotidien”, onde já havia estado, aprecio e recomendo vivamente. A aposta no pão e o conceito da mesa comunitária, promovem o convívio, a partilha e convidam à conversa.


Regressei a pé, a noite estava magnífica, como aliás nos últimos dias. Um calor húmido que traz para a rua muitas pessoas e torna frequente as esplanadas e os restaurantes nos passeios. Esta é uma cidade muito movimentada, são vários os edificios de escritórios e os complexos de empresas é por isso habitual, ao início da noite, cruzarmo-nos com executivos em andamento rápido. Apesar de tudo, a solidão é uma realidade que se sente, está em todo o lado; nas ruas, no metro, nos restaurantes. Washington é uma cidade de solitários; mulheres, homens e aqueles que não são uma coisa nem outra, deambulam perdidos, desenraizados, vivem nos seus mundos, aliados da realidade, mascarados com i-pods, revistas e jornais.

Parei num World Press Center, fiquei surpreendido com a variedade de imprensa, mais ou menos especializada, de todo o mundo. Entusiasmei-me, achei que encontraria alguma portuguesa, talvez o Expresso, mas não, infelizmente a única revista portuguesa, era a Veja, do Brasil. Acabei trazendo a Time Magazine que tinha como artigo de fundo, "The Education of Sarah Palin", tive curiosidade, na realidade é o assunto do dia ou da semana, aqui em Washington.

Sarah Palin é uma mulher bonita, determinada, cativante e apelativa para um segmento bastante alargado de eleitorado; os ultraconservadores, as mulheres e os facilmente impressionáveis pela imagem.

Na realidade ela é uma respeitável dona de casa e mãe de familia, sem experiência relevante, sem curriculum consistente ou conhecido, presidente de câmara, politica local, distante dos centros de decisão de Washington, das elites intelectuais republicanas, profudamente desconhecida e desconhecedora da política internacional.

Segundo Joe Klein, na sua crónica "In the Arena", da Time Magazine, a escolha dos Vice-presidentes, por parte de Obama e de McCain, revela muito sobre o tipo de Presidentes que podem vir a ser. Afinal, Obama é o conservador, o cauteloso, a sua escolha para Vice-presidente foi pensada, silenciosa e compreensiva. Biden não constituiu uma grande surpresa, ele vem acrescentar experiência, assegurar a lealdade ao partido e a firmeza do ataque. A prudência e a vontade de consenso são características relevantes na sua actuação e bom prenúncio para o exercício do cargo.
John McCain, resolveu partir a loiça, a escolha de Palin foi uma surpresa, a sua conduta questionável em vários temas, como por exemplo a questão da ponte, as suas posições extremistas em relação a variados assuntos, contrastam com algumas do próprio McCain. Segundo Klein “the Palin selection – peremptory, petulant – was another example of McCain’s preference for the politics of gesture over the politics of substance as is his sudden fondness for oil exploration (“drill here, drill now”) and hair-trigger bellicosity abroad (Syria, Iran, Russia)”.


Em resumo, Palin tem sido um “must” dos noticiários e sobretudo dos cartoonistas.


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domingo, 7 de setembro de 2008

The Celebration of Freedom

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Sábado foi um dia entediante, chuvoso, húmido e desconfortável, não convidou a sair, nem tão pouco serviu de inspiração para a minha escrita. Passei grande parte da tarde em casa viajando pelo mundo através do meu computador e, felizmente, a maior parte do tempo tive a companhia da minha mulher. O “skype” constitui uma maravilha da tecnologia, ajuda-nos a lidar com a distância e com a ausência e atenua de forma considerável a saudade.
O desespero e a sensação de claustrofobia acabaram por me obrigar a sair para enfrentar a chuva copiosa que se fazia sentir.

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Curiosamente, a distribuição e a recolha de correio não param, nem ao sábado. A USPS está em todo o lado e não me deixa indiferente. Nos Estados Unidos os correios funcionam seis dias por semana.

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Decidi enfrentar a chuva e o vento e abracei uma cidade deserta, restaurantes fechados, lojas vazias, muito pouco movimento. Washington é, claramente, uma cidade de trabalho e de passagem e, pelo menos este ano, o número de turistas parece ter diminuído de forma relevante.

Fui visitar a Renwick Gallery, onde já havia passado anteriormente. O edifício é bonito e imponente, mas as exposições não eram muito cativantes.

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Hoje domingo, o sol voltou e o cenário convidou ao passeio. Aproveitei a manhã e fui de metro até ao Arlington National Cemetery. Fica situado num colina de frente para Washington e nele estão sepultados milhares de militares que lutaram nas variadas guerras em que os Estados Unidos participaram.

Arlington Cemetery constitui um cenário profundamente marcante e carregado de significado. Tinha curiosidade de visitar o túmulo de J. F. Kennedy, admiro-o pelo seu carisma, pela sua firmeza, pela sua segurança, pela sua força e pela sua coragem. Considero que encarna uma ideia da América que me seduz e que partilho; a defesa da liberdade, a luta pelos direitos dos mais oprimidos, a aposta na tecnologia e na ciência, a pedagogia da paz e a coragem perante as adversidades. Ideais que podemos encontrar no seu inesquecível “Inaugural Address”, de 20 de Janeiro de 1961 e cujos excertos se encontram no mural de granito que secunda a sua sepultura.

Mas a visita a este cemitério vai muito para além desta sepultura, os campos de lápides a perder de vista, as extensões infindáveis de mortos a contemplar a magnífica vista de Washington fazem-me pensar em como é nebulosa a natureza humana, como foi importante o papel que estes homens tiveram na luta pela liberdade e quanto lhes devemos, enquanto europeus, pela sua ajuda na salvaguarda da nossa identidade.
Não deixa de ser irónico que os mortos desta colina estejam de frente para o poder que os mandou partir; frente a frente, peões e poder, comandantes e comandados, governo e governados.

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Continuei a minha caminhada e regressei à cidade, através da Arlington Memorial Bridge. Parei no Lincoln Memorial e contemplei a linearidade, a precisão com que toda esta cidade foi projectada. Parece que todos os pormenores foram pensados, a harmonia dos monumentos, a conjugação dos materiais, a diversidade das instalações. Nem Brasilia teve tanta minúcia e precisão na sua monumentalidade.

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Terminei o dia na National Gallery of Art, mais uma vez fui surpreendido pela beleza do edifício. A conjugação das suas alas East e West, uma de 1941 e a outra de 1978, numa harmoniosa parceria de contemporaniedade. O acervo deste museu é fabuloso, as suas colecções de renascentistas e de impressionistas estão ao nível das melhores do mundo.


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