segunda-feira, 24 de maio de 2010

Memorial do Despesismo

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“Saiba vossa majestade que, haver, havemos cada vez menos, e dever, havemos cada vez mais”. (José Saramago, Memorial do Convento)
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Não deixo de me surpreender com a intemporalidade da nossa História e com a actualidade de algumas das suas personagens. Se é certo que muitos autores nas suas obras romanceadas libertam a imaginação e dão largas à criatividade, não é menos verdade que algumas destas obras revelam grande proximidade da realidade.
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Eça de Queiroz revela uma mestria superior ao retratar Portugal e os portugueses. Descreve e caricatura magistralmente o espírito do português; a pequenez, a inveja e a mediocridade. Mais recentemente, Saramago, no Memorial do Convento alcança resultados similares. Recorrendo ao romance histórico, revela-nos traços de carácter, condutas, personagens, demonstrações de vontade, apreciações espirituais, características do século XVIII, mas que se conseguem transpor, quase na totalidade, para os tempos actuais.

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A este propósito, tive oportunidade de assistir, este fim-de-semana, a uma peça de teatro, no Convento de Mafra, baseada na obra de Saramago. Em conjunto com um grupo de alunos do Colégio Luso-Francês do Porto, pude despertar para as semelhanças flagrantes e para a afinidade desconcertante de muitos aspectos retratados, com os tempos presentes e os figurantes actuais. Através da contraposição de dimensões, Saramago faz uma crítica à sociedade da época que se aplica quase na perfeição ao nosso Portugal de 2010.
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Segundo refere Ana Margarida Ramos, na obra “Memorial do Convento - da leitura à análise”: “Rei de Portugal de 1706 a 1750, D. João V é o símbolo do monarca absoluto, vaidoso, megalómano, egocêntrico que quer deixar como marca do seu reinado uma obra grandiosa e magnificente - o Convento de Mafra. Este é construído sob o pretexto de que cumpre uma promessa feita ao clero, classe que "santifica" e justifica o seu poder”.


Primeiro-ministro de 2005 a 2010, José Sócrates é o símbolo do poder autista, megalómano, egocêntrico e incompetente que quer deixar como marca do seu mandato várias obras desnecessárias e onerosas como o TGV e a terceira travessia sobre o Tejo. Construídas sob os auspícios do “keynesianismo” descabelado e do aproveitamento dos fundos europeus, acabarão por constituir a fonte das nossas misérias e a bênção final da nossa agonia.


“D. João V queria construir uma basílica de S. Pedro em Lisboa, mas o arquitecto de Mafra, que foi chamado pelo rei, João Frederico Ludwig, aconselhou-o a não construir a basílica, porque demorava muito tempo a construir e D. João V poderia já não estar vivo quando acontecesse a inauguração desta. Então o rei decidiu aumentar o convento de Mafra de oitenta para trezentos frades, e assim foi. O projecto é, sem dúvida, ambicioso demais para os recursos do reino, o que se reflecte em conversa, imaginada pelo narrador, entre o rei e o almoxarife ou guarda-livros. Então começaram as obras, mas depois o rei decidiu que a inauguração do novo convento seria no dia dos seus anos, que calhava num domingo, daí a dois anos; após essa data, o seu próximo dia de anos, que calhasse num domingo só seria daí a dez anos e poderia ser muito tarde”. Como dois anos seria pouco tempo para a construção do novo convento, D. João V decidiu inaugurá-lo, com aparato e folclore, muito antes deste estar concluído.
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José Sócrates queria construir 3 eixos ferroviários para o TGV, um novo aeroporto, variadas auto-estradas, a terceira travessia, mas o peso das dívidas, a pressão da opinião especializada, a influência dos credores obrigaram-no a recuar, uma vez que as consequências poderiam ser calamitosas. Então o Primeiro-ministro optou por aguardar por melhores dias, mas sempre com a obsessão de concretizar as obras. Algumas foram mesmo adjudicadas e, uma vez que demorariam a ser concluídas e a probabilidade deste Primeiro-ministro já cá não se encontrar ser elevada, decidiu-se fazer uma festa pomposa e mediática para lançamento da primeira pedra, em que se despenderam fortunas em tendas, luzes e multimédia.
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Na obra de Saramago há dois grupos antagónicos: “a classe opressora, representada pela aristocracia e alto clero, e os oprimidos, o povo, encarnado em Baltasar e Blimunda”. No nosso caso, para o primeiro grupo destaca-se a actuação do Primeiro-ministro e da classe política, enquanto que no segundo, temos o povo, que continua oprimido e subjugado na actualidade.
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A perseguição e a opressão dos que se destacam, tão presentes na nossa sociedade, estão também retratadas na obra, através do padre Bartolomeu de Gusmão, perseguido pela Inquisição, como resultado da modernidade do seu espírito científico e da sua ousadia intelectual. Os espíritos livres e independentes, os líderes de opinião e os desalinhados do carneirismo militante de hoje são retratados pelo maestro Domenico Scarlatti que, pela liberdade de espírito e pelo poder subversivo da sua música, é uma figura incómoda para o Poder.

Felizmente, temos tido quem nos retrate bem. Infelizmente, a caricatura mantém-se mais ou menos inalterada com o passar dos anos. O que nos falta é alguém que nos desenhe de novo...

Deixo um excerto da obra, que é revelador da actualidade da mesma:

"Então diz-me lá como estamos de deve e haver. O guarda-livros leva a mão ao queixo parecendo que vai entrar em meditação profunda, abre um dos livros como para citar uma decisiva verba, mas emenda ambos os movimentos e contenta-se com dizer, Saiba vossa majestade que, haver, havemos cada vez menos, e dever, devemos cada vez mais, Já o mês passado me disseste o mesmo, E também o outro mês, e o ano que lá vai, por este andar ainda acabamos por ver o fundo ao saco, majestade, Está longe daqui o fundo dos nossos sacos, um no Brasil, outro na Índia, quando se esgotarem vamos sabê-lo com tão grande atraso que poderemos então dizer, afinal estávamos pobres e não sabíamos, Se vossa majestade me perdoa o atrevimento, eu ousaria dizer que estamos pobres e sabemos, Mas graças sejam dadas a Deus, o dinheiro não tem faltado, Pois não, e a minha experiência contabilística lembra-me todos os dias que o pior pobre é aquele a quem o dinheiro não falta, isso se passa em Portugal, que é um saco sem fundo, entra-lhe o dinheiro pela boca e sai-lhe pelo cu, com perdão de vossa majestade, Ah, ah, ah, riu o rei, essa tem muita graça, sim senhor, queres tu dizer na tua que a merda é dinheiro, não, majestade, é o dinheiro que é merda, e eu estou em muito boa posição para o saber, de cócoras que é como sempre deve estar quem faz as contas do dinheiro dos outros". (José Saramago, Memorial do Convento)

1 comentário:

auxília disse...

"Não há nada fora da história, a ficção acaba por reflectir sempre a história, a história está nela mesmo que seja na última franja do que se narra" - disse Saramago. Eu apenas sublinho que, em alguns momentos de "Memorial do Convento", nunca a ficção me pareceu tão colada à realidade. De tal forma que, hoje, se torna difícil distingui-las. A ficção poderia ser outra: "Era uma vez um primeiro-ministro que fez promessa de construir um aeroporto em Alcochete..."
Se, com o seu romance, o objectivo de Saramago era desassossegar, inquietar o leitor e as consciências, "Memorial do Convento" dever-se-ia tornar leitura obrigatória dos nossos dirigentes políticos e não apenas dos alunos de 12º ano...