terça-feira, 23 de setembro de 2008

Horizonte de um mar imenso

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Não podia deixar de referir Vitorino Nemésio, o escritor que melhor retrata os Açores e a açorianidade, aquele que melhor fala o coração do ilhéu, o que melhor retrata a vivência humana no meio do mar e da solidão das ilhas, dos vulcões e das tempestades. Nemésio fala do sentir açoriano, aquela identidade única, aquele apego à terra, aquele amor ao mar.

Assim escreveu Nemésio num poema de O Bicho Harmonioso, intitulado "Correspondência ao Mar".

"Quando penso no mar
A linha do horizonte é um fio de asas
E o corpo das águas é luar

De puro esforço, as velas são memória
E o porto e as casas
Uma ruga de areia transitória

Quando penso no mar, o mar regressa
A certa forma que teve em mim
Que onde ele acaba, o coração começa "

Foi este espírito, este apego intrínseco, este amor imenso em que coração se confunde com ilha, que levou Nemésio, bastante jovem, a fazer uma conferência em Coimbra sobre "O Açoriano e os Açores”. Documento marcante e revelador da forma apaixonante como Nemésio divulgou as suas ilhas, sobretudo porque delas distanciado, “desterrado”. Curiosa é esta sua observação, no início do século:

«... tirado do ambiente um pouco estreito em que vive, o ilhéu desentranha-se em vida e prodigaliza em acção. É inventivo, tenaz, paciente e dispõe de uma reserva de dons que, uma vez desatados, o guindam muitas vezes a notáveis posições […] Assim cumpre o açoriano o seu secular destino. Por toda a parte se desenvolve e adapta, e - coisa singular! – já não é o mesmo homem aparentemente fatalista, lento de voz e meneios, que parece vergar na sua ilha sob o peso inclemente dum avatar geográfico. A sua adaptação não é cómoda, mas vigorosa e seguida de um rejuvenescimento salutar». (Vitorino Nemésio, «O Açoriano e os Açores»)

Apesar de tudo, como escreveu Nemésio no poema intitulado “A Concha”, estamos sentados num pedra de memória:

"A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória".

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